As perguntas que Flávio Bolsonaro deixou sem resposta no debate da Band

Levantamento do BdF: senador deixou sem resposta o núcleo de 13 das 20 perguntas que recebeu

Flávio Bolsonaro participa do debate presidencial da Band (Foto: Renato Pizzutto/Band)

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou sem resposta a maior parte das perguntas que recebeu no primeiro debate do segundo turno, realizado pela TV Bandeirantes no domingo (18/10). Levantamento do Brasil de Fato a partir da íntegra da transmissão mostra que, das 20 perguntas dirigidas a ele pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pela mediação, o candidato do PL respondeu ao ponto central de apenas sete. Em outras dez, respondeu em parte e, em três, mudou de assunto ou contra-atacou.

O levantamento classificou cada pergunta com as mesmas regras para os dois candidatos. Pergunta repetida conta uma vez; vale a melhor resposta dada ao longo do debate, e provocações retóricas ficaram de fora. Ter respondido não significa que a resposta seja verdadeira, e os números citados pelos candidatos não foram checados nesta análise.

Algumas perguntas Lula repetiu várias vezes, e elas continuaram sem resposta mesmo depois da insistência. Em determinado momento, o presidente listou quatro questões que o adversário teria deixado de lado: o dinheiro de Vorcaro, o policial, a numeração das balas e a licença-maternidade. Afirmou ainda que ele “se preparou para não responder nenhuma pergunta”.

Vorcaro: ‘Já expliquei várias vezes’

A pergunta mais repetida da noite foi sobre o destino dos R$ 134 milhões negociados com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Lula fez a pergunta ao menos sete vezes. Flávio Bolsonaro disse que o dinheiro foi para o filme, mas se recusou a detalhar o caminho dos recursos.

“Já expliquei várias vezes. Vou explicar quanto for necessário”, disse. Depois, afirmou que já tinha dado as explicações que tinha de dar. Lula contestou a versão citando a diretora do filme e o Banco Central.

Também ficou sem explicação a compra de uma casa que, segundo Lula, custou R$ 10 milhões e teve parte paga com recursos do Banco de Brasília (BRB), instituição envolvida no caso Master. Flávio Bolsonaro respondeu que comprar “com o suor do seu trabalho” está tudo bem e voltou a atacar o filho do presidente. Lula cobrou de novo no fim do debate, sem resposta sobre o BRB.

INSS, licença-maternidade e Escritório do Crime

Lula perguntou duas vezes se a quadrilha que fraudou o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) foi montada no governo de Jair Bolsonaro. O senador não negou. Contra-atacou citando a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e o irmão do presidente, Frei Chico, e apresentou outra versão: Bolsonaro teria enviado uma medida provisória contra a fraude, e a brecha teria vindo de uma emenda da bancada do PT.

Lula também questionou por que, como deputado estadual em 2009, Flávio Bolsonaro foi, segundo o presidente, o único de 49 parlamentares a votar contra a ampliação em dois meses da licença-maternidade das funcionárias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). “O que você tem contra as mulheres?”, perguntou.

O senador disse não ter nada contra as mulheres, citou a esposa e as filhas e mudou de assunto para a empresária Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, filho do candidato do PT. “Você não respondeu à pergunta […]. Por que você votou contra?”, insistiu Lula. O voto não foi explicado.

O presidente também perguntou por que o senador deu emprego a familiares “do cara que é o Escritório do Crime”, grupo de matadores de aluguel do Rio de Janeiro. Flávio Bolsonaro respondeu que Lula emprega condenados do Mensalão e da Petrobras. “Eu fiz três perguntas e você não responde nenhuma”, rebateu Lula.

Milei, hospitais e o policial

Lula perguntou três vezes se Flávio Bolsonaro mantém o presidente argentino Javier Milei como modelo, inclusive se pegaria emprestada a “motosserra” de cortes. O senador falou dos “amigos” de Lula, citando Nicarágua, Venezuela e Irã, disse que a direita vem consertar o que a esquerda deixa e prometeu um “tesouraço na corrupção”. Não disse sim nem não sobre Milei.

Questionado sobre a situação dos seis hospitais federais do Rio de Janeiro, chamou as falas do presidente de mentira e passou a falar de outros temas. Não tratou dos hospitais.

Lula também perguntou duas vezes por que, como senador, Flávio Bolsonaro interferiu para que um policial que matou uma criança de cinco anos com tiro de fuzil não fosse preso. O candidato do PL questionou por que, segundo ele, 73% dos presos votaram em Lula. Depois, disse que o presidente “não pode criminalizar a advocacia” e que o policial nem tinha sido julgado. Não explicou a própria atuação no caso.

Propostas pela metade

Nas perguntas da mediação, o senador apresentou propostas, mas deixou de fora pontos centrais. Sobre economia, atacou o governo e atribuiu um “espaço de mais de R$ 200 bilhões” no orçamento à queda dos juros sobre a dívida e ao combate à corrupção, sem detalhar a conta. Carga tributária e crescimento ficaram de fora. “O primeiro passo é tirar o Lula”, afirmou.

Sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), repetiu o “padrão Einstein” e citou prontuário eletrônico único e telemedicina, mas não disse como financiaria a ampliação do atendimento. Na segurança, defendeu tratar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas e abrir meio milhão de vagas em presídios. Não falou, porém, do impacto da redução da maioridade penal, que era o núcleo da pergunta. Só defendeu a redução no fim do debate, por conta própria, e sem tratar do impacto.

Lula também perguntou se o grupo do senador pretende entregar terras raras e minerais críticos aos Estados Unidos. Flávio Bolsonaro chamou a pergunta de “fake news” e “mentira”, falou da tarifa e explicou o Escudo das Américas como uma cooperação contra o narcotráfico. Terras raras e minerais críticos não foram mencionados.

O desafio do sigilo

Na reta final, Lula desafiou o adversário a abrir, no dia seguinte, o sigilo bancário e telefônico das duas famílias e entregar os dados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) antes da eleição. “Eu não tenho absolutamente nada a esconder”, respondeu o senador, que em seguida afirmou que o dinheiro de Lula “é por fora”. Não aceitou nem recusou o desafio. Para o cientista político Paulo Roberto Sousa, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), esse foi o “ponto alto” de Lula no debate.

O que ele respondeu

Flávio Bolsonaro respondeu diretamente quando Lula perguntou se mantém escritório com o “Careca do INSS”: “Eu não mantenho o escritório com careca”. Negou ter tentado retirar a numeração das munições (“Nunca quis tirar nada disso, Lula”), contestou os números de armas e balas liberadas no governo anterior e disse que o “tesouraço” que propõe cairia sobre os “privilégios” do presidente.

Lula perguntou se dava para acreditar que ele não proporia acabar com o fim da escala 6×1, e ele respondeu: “É óbvio que não. É só mais uma mentira sua”. Também respondeu à mediação sobre produtividade e, como dito acima, à pergunta sobre o destino do dinheiro de Vorcaro.

Lula também desviou

Pelo mesmo critério, Lula também deixou perguntas sem resposta. Das 15 perguntas que recebeu de Flávio Bolsonaro e da mediação, desviou de duas, respondeu em parte a sete e respondeu ao ponto central de seis. Sobre Roberta Luchsinger, limitou-se a dizer que “é uma questão da Polícia Federal”, sem dizer se a conhece.

A diferença, segundo o levantamento, está na insistência. As perguntas que Lula repetiu várias vezes, como a do voto contra a licença-maternidade, da atuação no caso do policial e do dinheiro do BRB na compra da casa, continuaram sem resposta ao núcleo até o fim do debate.

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