‘O comércio é o principal vetor da economia do Amazonas’, diz Aderson Frota, presidente da Fecomércio-AM

Presidente da Fecomércio, Aderson Frota, é o entrevistado do Panorama Real deste domingo (14/04)

Aderson Frota está na presidência da Fecomércio-AM há cinco anos (Foto: Divulgação/Fecomércioa-AM)

Formado em Direito pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o atual presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas (Fecomércio-AM), o empresário Aderson Santos da Frota, 76 anos, chegou a atuar por 16 anos como advogado, antes de abandonar a profissão e se dedicar exclusivamente à área comercial, onde possui uma história de sucesso que supera cinco décadas.

Segundo ele, a paixão pelo comércio surgiu, há 51 anos, a partir da necessidade de achar um trabalho para o pai, que havia se aposentado após anos de trabalho no funcionalismo público estadual e estava ocioso dentro de casa. Naquela época, Aderson Frota investiu o dinheiro que ganhou na advocacia e montou uma loja de tintas, que hoje possui três unidades na capital amazonense.

“Eu era advogado. Tinha 24 anos e já possuía uma carteira magnífica, que tinha Brasil Juta, Lobrás, Supermercados Royale, Escola Técnica e Sebrae, além de dois bancos, entre os clientes. O meu pai era funcionário do Dera (Departamento de Estradas de Rodagem do Amazonas) e se aposentou com 61 anos. Ele ficou dentro de casa sem nada para fazer e, ainda, brigava com minha mãe. Foi quando disse para meu pai que ficar em casa não era projeto de vida e que iria arrumar algum negócio para ele. Foi quando comprei o ‘Mundo das Tintas’ e comecei o negócio. Montei a empresa para suprir a ociosidade do meu pai”, diz o empresário.

A trajetória de sucesso transformou Aderson Frota em uma grande liderança empresarial no Estado do Amazonas, onde tem raízes, uma vez que é nascido na cidade de Boca do Acre (a 950 quilômetros de Manaus). Atualmente, ele é presidente da Fecomércio-AM e, também, do Sindicato do Comércio Varejista de Louças, Tintas, Ferragens, Material Elétrico e de Construção de Manaus (Simacom).

Aderson Frota possui, ainda, vasta experiência no exercício de cargos de entidades que representam o comércio local, atuando na direção da Associação Comercial do Amazonas (ACA) e da Câmara de Dirigentes Lojistas de Manaus (CDLM), chegando a ocupar até uma vaga no Conselho de Administração da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), no Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-AM), no Serviço Nacional de Aprendizagem do Amazonas (Senac), no Conselho Regional do Serviço Social do Comercio do Amazonas (Sesc) e no Conselho da Agência Reguladora dos Serviços Públicos Concedidos do Estado do Amazonas (Arsam), entre outros órgãos.

Para falar sobre a atuação da Fecomércio-AM e o setor comercial, de modo geral, Aderson Frota foi entrevistado pelo Panorama Real. Confira a entrevista na íntegra abaixo:

Panorama Real: A Fecomércio-AM celebra 70 anos em 2024. Como o setor comercial se encontra após essas sete décadas?

Aderson Frota: A Fecomércio-AM vive um momento superimportante. Ao completar 70 anos, nós, que sofremos muito na pandemia da covid, temos o prazer de festejar o fato de que nós somos hoje o principal vetor da economia do Amazonas. Respondemos por quase 70% dos empregos do Estado, respondemos também por quase 61% da arrecadação do Estado em termos de ICMS e somos 46,7% do PIB, o que é algo realmente importante. Sabemos que essa importância é grande porque, além desses números, atendemos a população em todos os quadrantes da cidade de Manaus e do interior do Estado. Portanto, nosso papel e nossa responsabilidade são grandes.

Panorama Real: O senhor citou a questão da covid. Qual foi o impacto que o comércio teve nessa época de fechamento por causa da pandemia da covid?

Aderson Frota: Tivemos um prejuízo grande. Aproximadamente 12% das empresas faliram no Estado todo, causando uma grande perda de empregos, o que significa crise na sociedade. Em função da covid, o comércio sofreu muito. 

Panorama Real: O comércio já superou os efeitos da pandemia, porém, passa por várias outras dificuldades. Quais são os principais desafios que o setor comercial enfrenta hoje?

Aderson Frota: O nosso principal desafio hoje é reverter o nosso conceito, que ainda é muito fraco em termos de população e autoridade. Algumas autoridades não conhecem nosso setor. A maior prova disso é que o setor que foi fechado durante a pandemia da covid foi o comércio. O setor comercial ficou fechado durante seis meses de forma até injusta. Nenhum dos setores (do comércio), a exceção dos supermercados, fez aglomeração. Portanto, fomos atingidos, infelizmente.

Panorama Real: Sobre a reforma tributária, a aprovação dela foi boa para o setor comercial?

Aderson Frota: De modo geral, a aprovação da reforma tributária foi positiva. Porém, não sabemos como essa reforma depois será regulamentada em sua aplicação. Estamos buscando, hoje, uma dilatação do prazo de pagamento. Hoje, a empresa nem recebeu a mercadoria ainda, e que só vai receber daqui a 150 dias, e já paga o imposto em 30 a 40 dias. Esse comportamento pune o comércio, descapitaliza a empresa e a coloca em dificuldades, e, na esteira dessa situação, vem o desemprego. O governo não vê o desemprego como uma crise social, mas como uma mera estatística.

Panorama Real: Qual seria a solução para essa questão do prazo de pagamento dos impostos?

Aderson Frota: Tem dois pontos. O primeiro é reduzir as margens de valor agregado que o comércio sofre, que são percentuais elevados que sangram o consumidor. Ou, o segundo ponto, é aumentar um pouco o prazo para ficar compatível com as condições provocadas pela estiagem, por exemplo. A carga tributária hoje é muito pesada. O único benefício que o comércio tem hoje é a isenção de PIS e Confins, que responde a mais ou menos 10%. O comércio vive uma situação que é fruto de uma cultura antiga. 

Panorama Real: Qual é o impacto que a seca severa do ano passado causou no comércio amazonense?

Aderson Frota: A estiagem de 2023 é um fator que, em 122 anos de registro, não tinha nada igual. A seca severa nos pegou de surpresa e nos colocou em uma situação extremamente delicada. O rio baixou numa velocidade tão grande, que, por exemplo, o interior do Estado ficou totalmente desabastecido. Em algumas cidades do interior, só tinha acesso com uma canoa com motor de rabeta. Foi um sufoco forte. Tivemos que nos sentar com os atores de toda a logística para conversar sobre quais seriam as soluções. No final das contas, o frete do container de 40 pés cresceu de R$ 12 mil para R$ 32 mil. Os dias para chegar a mercadoria, que normalmente eram de 30 dias, eles saltaram para 150 dias. Houve, portanto, um problema grande, que atingiu a economia e as empresas, com o aumento dos custos.

Panorama Real: Para este ano, a previsão é a de que a estiagem será ainda pior. Como o setor está se preparando para essa situação?

Aderson Frota: A seca é algo que nos preocupa. Se bem que agora, nós já temos, mais ou menos, alguns roteiros de soluções, o que nos favorece. Porém, agora, estamos sob a ameaça de uma segunda edição da estiagem. Vamos convocar de novo os mesmos agentes da logística, como rodoviária, portos, agentes de navegação, operadores de carga, todos os órgãos envolvidos, como o Dnit, e iremos de novo se sentar para conversar sobre essa situação.

Panorama Real: O Dia das Mães, que é uma das principais datas do comércio local, se aproxima. Qual é a expectativa da Fecomércio-AM para o Dia das Mães?

Aderson Frota: A melhor data do comércio depois do Natal é o Dia das Mães. A expectativa é de que haja crescimento para o Dia das Mães. Estamos prevendo 5%, mesmo com as dificuldades que enfrentamos e o elevado índice de inadimplência da população, que chegou a 92% e hoje está em 84%, segundo a CNC. Esse índice de inadimplência do consumidor ainda está muito elevado.

Panorama Real: Na visão da Fecomércio-AM, por que há um alto índice de inadimplência?

Aderson Frota: Antigamente, a taxa Selic era de 2,5%. Ela saltou 600%, por ação do Banco Central para conter a inflação. A taxa Selic é referência como juros bancários, porém o grande objetivo dessa taxa é conter a inflação, que atinge a população como um todo. Em paralelo, essa política de contenção da inflação dificulta a vida do consumidor e a economia fica travada.

Panorama Real: Para finalizar, como é a relação da Fecomércio-AM com outras entidades da área comercial do Estado, como a ACA e a CDLM?

Aderson Frota: Nossa relação é boa, porque nosso setor, do ponto de vista dos conceitos, da percepção das autoridades e da população, é frágil. As pessoas ainda acham que a indústria é o grande motor da economia do Amazonas.  

add_action('wp_footer', function() { ?>