Seca afeta mais de 420 mil crianças na região amazônica, diz Unicef

Seca atinge várias comunidades ribeirinhas no Estado do Amazonas (Foto: Paulo Diógenes/Unicef)

A seca afeta atualmente mais de 420 mil crianças que enfrentam níveis perigosos de escassez de água e outros efeitos da estiagem severa em pelo menos três países da região amazônica, no caso, Brasil, Colômbia e Peru. O novo alerta foi emitido no último dia 7 de novembro pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Segundo órgão internacional, a seca recorde, que está em andamento desde o ano passado e deixou os rios da bacia amazônica em baixa, afeta, principalmente as crianças de comunidades ribeirinhas e indígenas no Brasil, na Colômbia e no Peru, onde as famílias dependem dos rios para transportar e acessar alimentos, água, combustível e suprimentos médicos básicos, bem como ir até a escola.

“Durante séculos, a Amazônia foi o lar de preciosos recursos naturais. Estamos testemunhando a devastação de um ecossistema essencial do qual as famílias dependem, deixando muitas crianças sem acesso a alimentos, água, cuidados de saúde e escolas adequados”, disse a diretora executiva do Unicef, Catherine Russell, ao defender que os efeitos das crises climáticas extremas devem ser mitigados para proteger as crianças de hoje e das gerações futuras. “A saúde da Amazônia afeta a saúde de todos nós”,

Ainda de acordo com o Unicef, serviços essenciais, incluindo saúde, educação e proteção infantil, bem como meios de subsistência agrícolas e pesqueiros, também estão severamente afetados na região, colocando vidas em risco.

O Unicef estima que US$ 10 milhões são necessários durante os próximos meses para atender às necessidades mais urgentes das comunidades afetadas pelas secas no Brasil, Colômbia e Peru, incluindo a distribuição de água e outros suprimentos essenciais, mobilização de brigadas de saúde e fortalecimento da resiliência dos sistemas comunitários e serviços públicos locais nas comunidades indígenas afetadas.

Escolas no Brasil

Conforme estimativas do órgão da ONU, somente na região amazônica do Brasil, mais de 1,7 mil escolas e mais de 760 centros de saúde foram fechados ou ficaram inacessíveis devido aos baixos níveis de água. De acordo com a última avaliação de campo do Unicef em 14 comunidades no sul da Amazônia brasileira, metade das famílias disse que seus filhos estão fora da escola como resultado da seca.

No Estado do Amazonas, todos os 62 municípios estão em situação de emergência desde o dia 28 de agosto deste ano devido a estiagem severa. Mais de 3 mil toneladas de alimentos e 200 toneladas de medicamentos e insumos já foram distribuídos para as regiões mais atingidas.

Para atender as famílias afetadas, o governo também instalou purificadores de água, além de enviar mais de 4,1 mil caixas d’água para melhorar o acesso à água potável.

Caixas d’água e cilindros de oxigênio foram distribuídos no interior do Amazonas (Foto: Divulgação/Secom)

Colômbia

Na Amazônia colombiana, os níveis de água dos rios caíram até 80%, restringindo o acesso à água potável e ao abastecimento de alimentos e levando à suspensão das aulas presenciais para crianças em mais de 130 escolas. Por sua vez, essa situação aumentou o risco de recrutamento, uso e exploração por grupos armados não estatais e também levou ao aumento de infecções respiratórias, doenças diarreicas, malária e má nutrição aguda entre crianças menores de cinco anos.

Peru

No Peru, a região de Loreto, no nordeste do país, é a mais afetada pela seca em curso, deixando em risco comunidades remotas – a maioria delas indígenas e já vulneráveis. Mais de 50 centros de saúde tornaram-se inacessíveis, enquanto os incêndios florestais – muitas vezes causados pelo homem, mas cuja propagação foi facilitada pelas secas dos últimos dois meses –, também estão causando devastação sem precedentes e perda de biodiversidade em 22 das 26 regiões do país e aumentando a poluição do ar local e regionalmente.

A insegurança alimentar causada pela seca aumenta o risco de má nutrição, atraso no crescimento e perda de peso e morte em crianças, principalmente nas menores de cinco anos, enquanto a escassez de água agravada pelas secas pode levar a um menor acesso à água potável e ao aumento de doenças infecciosas. A pesquisa também descobriu que as mulheres grávidas que enfrentam secas provavelmente terão filhos com menor peso ao nascer.

Estiagem causa a baixa dos rios na região amazônica (Foto: Paulo Diógenes/Unicef)

Unicef cobra ação na COP29

Em seu relatório, o Unicef faz um pedido para que os líderes que participarão da COP29, que se iniciou, nesta segunda-feira (11/11), em Baku, no Azerbaijão, realizem pelo menos quatro ações críticas para ajudar crianças e jovens afetadas pela seca severa. São elas:

  • Garantir que as decisões da COP29 respondam ao impacto único e desproporcional das mudanças climáticas nas crianças;
     
  • Garantir um aumento dramático no financiamento climático para crianças, incluindo financiamento para adaptação e perdas e danos;
     
  • Garantir que todas as NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) 3.0 sejam sensíveis às crianças e respondam ao impacto desproporcional das mudanças climáticas nas crianças;
     
  • Capacitar crianças e jovens a estarem presentes e participarem significativamente da tomada de decisões climáticas em todos os níveis.

“Em todas as partes do mundo, as crianças enfrentam consequências devastadoras das crises climáticas. Estamos em um momento crítico. As crianças devem estar no centro de nossas negociações climáticas”, acrescentou a diretora executiva do Unicef, Catherine Russell.

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