Indígenas criticam visita de Biden a Manaus: ‘Ele não é bem-vindo’

Visita de Joe Biden no fim do mandato pode não trazer vantagens à Amazônia (Foto: Divulgação)

No “apagar das luzes” do mandato, que se encerrará no dia 19 de janeiro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, decidiu visitar a capital amazonense para ouvir os indígenas da Amazônia. A vinda dele é vista com desconfiança por parte das lideranças, que tentam buscar o apoio norte-americano para as principais causas dos povos originários da região.

Neste domingo (17/11), Biden se tornará o primeiro presidente em exercício da história dos Estados Unidos a pisar na Amazônia brasileira em 200 anos de relação com o Brasil. Ele desembarcará no início da manhã, quando dará uma entrevista aos veículos de comunicação credenciados ainda no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. Em seguida, ele fará uma visita ao Museu da Amazônia (Musa) e depois deverá visitar o maior bairro indígena do Brasil: o Parque das Tribos, no Tarumã.

Em termos práticos, segundo a ativista indígena Vanda Witoto, a viagem representa pouco para a floresta e para quem vive nela. “Como um presidente que financia a exploração de petróleo e o genocídio da Palestina, que são nossos parentes originários, vem falar em defesa da vida dos povos indígenas e da Amazônia? Ele não é bem-vindo em nosso território e nunca fez nada pelos indígenas do Brasil”, declarou a liderança indígena ao portal Panorama Real.

O presidente norte-americano pretende dialogar com as lideranças locais sobre a preservação da floresta, no entanto, alguns representantes conhecidos da causa indígena não foram convidados, entre eles a própria Vanda Witoto.

“Ele não vai fazer nada pelos indígenas. Vem aqui só tirar foto e mostrar para o mundo que está fazendo algo por nós. Não existe uma preocupação com a nossa causa, tanto que não fomos convidados para a sua agenda”, declarou a ativista.

Passagem breve

A visita de Biden será breve. Ele deverá permanecer por quase quatro horas na capital amazonense e, depois, ele seguirá para o Rio de Janeiro, onde participará da reunião com a cúpula do G20. Inicialmente, a expectativa era de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participasse da agenda, o que não foi confirmado pelo Palácio do Planalto.

“O presidente viajará para o Brasil e começará com uma parada histórica na Amazônia para reforçar o seu compromisso pessoal e o compromisso contínuo dos EUA em todos os níveis de governo e em todo o nosso setor privado e sociedade civil para combater as mudanças climáticas no país e no exterior. E esta tem sido, obviamente, uma das causas definidoras da presidência do presidente Biden”, disse o Conselheiro de Segurança Nacional de Biden, Jake Sullivan, no anúncio oficial sobre a visita do político norte-americano.

Vanda Witoto é ativista indígena (Foto: Instagram)

Para os indígenas, no entanto, a visita de Biden a Manaus deve ser apenas um desfecho simbólico para um enredo de desacertos na pauta ambiental e climática.

“A verdade é que Joe Biden prometeu muito para a Amazônia, inclusive, quando era ainda apenas candidato, mas não entregou quase nada. E agora, a dois meses de deixar a Casa Branca, já não tem muito mais a oferecer além de fotos e apertos de mãos”, destacou Vanda Witoto.

Promessas

Eleito com a proposta de enfrentar o desafio das mudanças climáticas, Biden chegou a citar o desmatamento da floresta amazônica brasileira como um dos seus focos de atenção durante a campanha presidencial. Ele prometeu, durante o debate com Donald Trump, US$ 20 bilhões (em torno de R$ 116 bilhões) para o Brasil não queimar mais a Amazônia.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) chegou a enviar uma carta ao presidente norte-americano e ao seu enviado especial climático, John Kerry, “para assegurar e cobrar que o Estado brasileiro volte a fazer uso de suas legislações ambientais e suas diversas agências de proteção, é essencial incluir os Povos Indígenas na mesa de negociação e elaboração de estratégias”.

Embora, o presidente norte-americano tenham enviado representantes para negociar com o governo brasileiro, naquele momento liderado por Jair Bolsonaro, nenhum dinheiro jamais foi liberado nesse período. Lula se elegeu prometendo promover o oposto da agenda de Bolsonaro em relação ao meio ambiente e conseguiu um aporte inicial de apenas US$ 50 milhões para o Fundo Amazônia.

Em 2023, durante as discussões do Orçamento do Executivo americano, o cálculo aprovado não previu um centavo para o Fundo Amazônia. Agora com a vitória de Trump, as questões de meio ambiente devem ficar fora da política internacional norte-americana.

“No discurso, eles tentam vender uma imagem que não é o que percebemos na prática. Até o presente momento não houve sequer um diálogo desse governo com os povos indígenas para tentar montar uma estratégia de enfrentamento às invasões de nossas terras. O que queremos não é discurso, é ação, fiscalização. Por isso é legítima a presença dos indígenas nas tomadas de decisão de qualquer medida para a Amazônia pelo governo americano”, disse Dinamam Tuxá, coordenador-executivo da APIB em entrevista à BBC. 

Amazônia é um dos temas internacionais mais importantes (Foto: Divulgação)
‘Muito tarde’

Parte das lideranças locais concordaram que a vinda de Biden à Amazônia no “apagar das luzes” de seu mandato é “muito tarde” para, de fato, termos uma atuação nas causas que envolvem o bioma.

“Qualquer decisão de Biden sobre a Amazônia pode ser desfeita em pouco mais de 60 dias, quando Trump assumir o poder. Sabemos como o novo presidente norte-americano age sobre as nossas pautas e pode derrubar qualquer repasse. Essa é a nossa maior preocupação”, destacou o indígena Same, da etnia Sateré Mawé.

Protestos em Manaus e no Rio

Entidades que defendem o fim do genocídio na Faixa de Gaza pretendem fazer protestos durante a visita do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em Manaus, neste domingo (17/11), e durante a reunião da cúpula do G20, no Rio de Janeiro, na próxima semana. Os atos visam denunciar e reivindicar uma atuação mais firme contra as agressões israelenses, que mataram mais de 43,7 mil pessoas em apenas 13 meses, desde o dia 7 de outubro de 2023, segundo dados as autoridades de Saúde palestinas.

Em Manaus, a Aliança pela Libertação da Palestina (ALP) convocou movimentos sociais de vários segmentos, coletivos populares, sindicatos e partidos políticos para participarem do ato em repúdio à presença de Joe Biden no Brasil.

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