‘Reconstrução de Gaza está em disputa entre Brics e EUA’, diz analista política

A exigência do Hamas é de que todas as tropas das forças de defesa de Israel se retirarem completamente da Faixa de Gaza (Foto: Reprodução)

Na última quarta-feira (15/01), foi anunciado um acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas, com início previsto para o próximo domingo (19/01), com a primeira fase do acordo durando seis semanas. Em menos de 24 horas, no entanto, ele está sendo colocado em xeque pelo governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Segundo a imprensa israelense, Netanyahu acusou o Hamas na quinta-feira (16/01) de provocar “uma crise de último minuto” por supostamente ter desistido de alguns pontos do acordo de trégua. As turbulências de um possível acordo que cessaria os ataques em Gaza foram o tema do nono episódio d’O Estrangeiro, podcast de política internacional do Brasil de Fato.

Para Bárbara Motta, coordenadora do Observatório de Política Exterior do Brasil (Opeb), “as chances [de um acordo efetivo] são muito pequenas. Não só por conta da alegação de Netanyahu [do pedido de última hora do Hamas], mas também por conta das próprias nuances do acordo”.

A exigência do Hamas de todas as tropas das forças de defesa de Israel se retirarem completamente da Faixa de Gaza “surge em todas as negociações até o momento” e seria “bastante surpreendente se Israel concordar em fazer isso”, esclarece Bárbara.

“Até porque a leitura de muitos opositores ao acordo em Israel é que a ação do Hamas [em 7 de outubro] só foi possível porque não havia na Faixa de Gaza uma ação de segurança ostensiva de Israel.”

Um dos principais pontos a serem discutidos pelas nações é a reconstrução de Gaza que, após 15 meses de incessantes ataques, “será muito custoso, tanto do ponto de vista financeiro, quanto de investimentos e estruturas, com a destruição das infraestruturas de escolas, hospitais e casas”, segundo Motta.

Ela explica que o Brics é um bloco capaz de auxiliar nesta reconstrução, mas que “os países que compõem o bloco têm disposições financeiras muito diferentes para ajudar neste processo”.

Quanto aos EUA, a postura ainda é incerta, principalmente por conta do novo governo trumpista que se aproxima. No entanto, esta disputa por um papel na reconstrução pode ser um novo motivo de disputas e influências entre os países do Brics e os EUA.

Lorenzo Santiago, correspondente do Brasil de Fato em Caracas na Venezuela, cita também o papel de Brasil e China neste cenário, por meio de projetos de desenvolvimento internacional dos países, ou mesmo com financiamentos propostos pelo banco do Brics.

Para a China, “este é um grande caminho que se abre para ter uma relação próxima com a Palestina, afinal, os chineses têm o potencial de exportar essa infraestrutura”. Já o Brasil, que também poderia dar esse suporte, “teria uma postura um pouco diferente da dos chineses, seria algo mais voltado para uma linha de crédito”.

Sul Global

Lorenzo também trouxe a perspectiva do Sul Global sobre o genocídio em Gaza e o possível acordo entre Israel e Hamas. O correspondente mencionou o mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), criado no Estatuto de Roma, no qual 124 países são participantes.

Em relação aos líderes da região, ele citou o posicionamento do presidente da Bolívia, Luis Arce, que apontou o cessar-fogo como “um caminho para a criação do Estado Palestino”, assim como o posicionamento de Gustavo Petro, presidente da Colômbia, que teve uma postura mais intransigente sobre o genocídio perpetrado pelo ministro israelense, quando também anunciou que não compraria mais armas de Israel e, mais tarde, quando anunciou o rompimento das relações entre os países.

O correspondente em Caracas também lembrou o posicionamento da própria Venezuela que, há muitos anos, reconhece a soberania do Estado Palestino e tem dentro de suas diretrizes das relações internacionais a defesa da Palestina, além do rompimento das relações com Israel há anos.

Estados Unidos como mediador do acordo

Na avaliação de Bárbara Motta, a atuação dos EUA como mediador do acordo de cessar-fogo é marcada pela disputa política entre Joe Biden, que permanece no cargo até o próximo domingo (19/01) e Donald Trump, que assume a Presidência na próxima segunda-feira (20/01).

Em relação ao Biden, “o interesse dele é de sair da Presidência e da carreira política com uma nota positiva, com um feito notável”, após a deterioração da sua imagem política nos últimos meses.

“Também há um receio de que o conflito se transformasse em guerra geral na região. Nos últimos meses, tivemos o Hezbollah envolvido no conflito. O Líbano, o Irã se envolveu em trocas de contra ofensivas com Israel, Israel avançou em território sírio”. Todos esses elementos, segundo a analista, seriam as costuras de Biden para buscar uma resolução do conflito em Gaza.

Sobre a relevância de Trump no acordo, ela considera que a postura mais incisiva de Trump com relação a conflitos globais pode ter influenciado para a finalização do acordo – que já vem sendo negociado há vários meses. “Não acho que esse tenha sido o elemento mais importante, é só mais um de vários elementos, como a própria mudança na correlação de forças, uma quebra na expectativa de Israel com relação as últimas incursões no território.”

O Eixo da Resistência e a China

Segundo Motta, o Eixo da Resistência, formado por países como Irã, o Hezbollah, os Houthis do Iêmen, o Hamas e a Síria, “está em uma postura muito enfraquecida” e muito mais na “defensiva”.

“Para esses países e grupos, além de todos os países que estão em defesa da Palestina, é muito importante os termos do acordo, para além do acordo em si. É muito importante como esse acordo será pactuado, e a garantia da sobrevivência e manutenção da Palestina é essencial”, esclarece a analista.

Motta também cita o posicionamento chinês no conflito. Segundo ela, o país tem tido uma “postura diferente”. “A China foi muito mais direta nas suas críticas a Israel.”

“Me parece que essa alteração é uma forma da China buscar ocupar esse espaço de potência hegemônica e possível estabilizadora do cenário internacional”, diz Motta. Para fazer isso, ela vai precisar “tomar partido e conversar com as partes que podem contribuir para uma solução”. O podcast O Estrangeiro é apresentado por Lucas Estanislau ao vivo toda quinta-feira às 10 horas.

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