Para contato geral e envio de pautas:
redacao@panoramareal.com.br
Para contato geral e envio de pautas:
redacao@panoramareal.com.br
"Não haverá exceções a essa política", disse o presidente dos Estados Unidos

Num gesto que revela o tamanho do desespero e da insatisfação dos Estados Unidos com novas parcerias mundiais, o presidente norte-americano, Donald Trump, aproveitou a reunião de cúpula do Brics, que é realizada no Rio de Janeiro, para ameaçar aplicar taxas extras a produtos de países que se alinhem ao grupo de 11 nações lideradas por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A publicação foi feita em seu perfil na rede Truth Social, sem detalhar quais países serão afetados nem especificar o que entende por “políticas antiamericanas”.
“Qualquer país que se alinhe às políticas antiamericanas do Brics será taxado com tarifa extra de 10%. Não haverá exceções a essa política. Obrigado pela atenção em relação a essa questão!”, escreveu Trump.
No domingo (06/07), a declaração de líderes do Brics criticou medidas protecionistas adotadas no comércio global.
“Reiteramos nosso apoio a um sistema multilateral de comércio baseado em regras, aberto, transparente, justo, inclusivo, equitativo, não discriminatório e consensual, com a OMC em seu núcleo, com tratamento especial e diferenciado (TED) para seus membros em desenvolvimento”, destacou a declaração.
Trump, que assumiu em janeiro deste ano, anunciou, logo no início de seu mandato, aumento de tarifas sobre produtos importados, o que gerou críticas e respostas de vários países.
Além de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, compõem o Brics a Arábia Saudita, o Irã, os Emirados Árabes, a Indonésia, o Egito e a Etiópia. Mais dez países são parceiros do grupo: Bielorrússia, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã. O encontro de líderes dos 11 países-membros e dez nações parceiras, no Rio de Janeiro, terminou nesta segunda-feira (07/07).

“Na reunião do Brics ninguém tocou nesse assunto, ou seja, como se não tivesse ninguém falado. Não demos nenhuma importância a isso”, disse Lula, em entrevista ao fim do encontro de líderes.
O presidente avaliou que a declaração de Trump – feita em seu perfil em uma rede social – foi irresponsável.
“Sinceramente, eu nem acho que eu deveria comentar, porque eu não acho uma coisa muito responsável e séria o presidente da república de um país do tamanho dos Estados Unidos ficar ameaçando o mundo através da internet”, acrescentou.
Lula disse, ainda, que os países são soberanos e que, se os Estados Unidos impuserem tarifas, os outros têm o direito de fazer o mesmo. “Existe a lei da reciprocidade”, destacou Lula. “Respeito é muito bom. A gente gosta de dar e gosta de receber. E é preciso que as pessoas leiam o significado da palavra soberania. Cada país é dono do seu nariz”.
O presidente Lula comentou ainda as declarações de Trump sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo o presidente dos EUA, Bolsonaro está sofrendo uma caça às bruxas e ele deve ser deixado em paz. “Esse país [o Brasil] tem leis. Esse país tem regra. Esse país tem um dono chamado povo brasileiro. Portanto, deem palpite na sua vida e não na nossa”, finalizou.
Em resposta às declarações de Trump, o Ministério das Relações Exteriores da China declarou que “o uso de tarifas não serve a ninguém”. A Rússia afirmou que a cooperação dentro do Brics “nunca foi e nunca será dirigida contra terceiros”. A África do Sul classificou o grupo como um “movimento em prol de um multilateralismo reformado”.
Apesar da retórica agressiva de Donald Trump, analistas apontam que a nova ofensiva pode acabar fortalecendo o papel do bloco como alternativa ao modelo neoliberal liderado por Washington.
Para Marta Fernández, pesquisadora do Brics Policy Center, a ameaça de Trump pode ter efeito contrário ao pretendido. “Ironicamente, reforça o papel do Brics como ator relevante do sistema internacional. Agora ele não mira um país específico, mas um bloco inteiro”, analisa.
Segundo ela, a estratégia do republicano é “dividir para dominar”, ao tentar gerar medo entre os países que negociam acordos bilaterais com os Estados Unidos. A Índia, por exemplo, ainda tenta evitar as tarifas unilaterais anunciadas em abril, que podem chegar a 50% em alguns setores.
Marco Fernandes, membro do Conselho Popular do Brics, considera que a declaração de Trump deve ser vista com cautela, mas não ignorada. “O método Trump é errático. Ele ameaça, volta atrás… A gente não sabe se leva a sério ou não. Mas o simples fato de ameaçar já é um sintoma do desespero do império.”
Para ele, a ameaça representa também um reconhecimento indireto do potencial que o Brics carrega como alternativa ao sistema liderado pelos Estados Unidos. “Ainda faz pouco, mas o potencial está lá. É por isso que está sendo atacado.”
As declarações de Trump foram feitas poucas horas depois da divulgação da “Declaração do Rio de Janeiro”, documento aprovado no primeiro dia da Cúpula do Brics, que ocorre até esta segunda-feira (07/07), no Rio de Janeiro. O texto evita nomear os Estados Unidos diretamente, mas traz críticas explícitas ao protecionismo, às tarifas unilaterais e à paralisia da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“É como se os EUA estivessem presentes na declaração, mesmo sem serem nomeados”, explica Fernández. “Os temas centrais dialogam diretamente com a política de Trump: sanções unilaterais, protecionismo, tarifas comerciais, o bloqueio do órgão de apelação da OMC.”
A declaração também defende o fortalecimento do multilateralismo, a reforma das instituições globais e medidas que visam um distanciamento do dólar. Entre as propostas estão um sistema alternativo de pagamentos e o uso crescente de moedas locais.
“O Brics tem buscado alternativas à infraestrutura financeira dominada pelos EUA, como o SWIFT”, completa Fernández. “Mesmo que com cautela diplomática, a agenda do bloco representa um movimento em direção a uma ordem internacional menos centrada nos interesses norte-americanos.”
Fernandes também aponta que, embora os líderes do bloco insistam que o Brics “não é anti-Ocidente, apenas não ocidental”, o movimento contrário parte do Norte Global. “O Ocidente é cada vez mais contra o Brics”, afirma.
Segundo ele, ao menos três países do bloco sofrem ataques diretos: Rússia e Irã, alvos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e de Israel, respectivamente, e China, alvo de sanções e campanhas de desinformação. “Até o Brasil foi ameaçado, como no caso de Alexandre de Moraes, e a África do Sul foi alvo de fake news sobre suposta perseguição a brancos.”
Com informações da Agência Brasil e do site Brasil de Fato