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Há três anos, o Amazonas viveu o pior momento da história da saúde do Estado. No dia 14 de janeiro de 2021, o caos se instalou no sistema quando faltou oxigênio nos hospitais, que, naquele momento, tentavam atender as vítimas da segunda onda da covid-19.
Os dias de terror vividos pela população manauara naquele período, com a morte de pacientes por asfixia, a ausência de vagas em UTIs e a chegada de uma nova variante mais transmissível do vírus, são uma tragédia difícil de esquecer e que até hoje faz os órfãos da crise buscarem reparação na Justiça.
No dia do colapso, amazonenses peregrinavam pela capital tentando recarregar os cilindros de oxigênio para mantê-las vivas. Nos dias seguintes, os hospitais colapsaram. Até uma unidade de recém-nascidos sofria com a falta de oxigênio. Mais de 60 pessoas teriam morrido por causa da falta de oxigênio.
Na ocasião, o consumo máximo foi de 30 mil metros cúbicos por mês. No segundo pico, o consumo passou a 76 mil metros cúbicos por dia, conforme dados do principal fornecedor do gás ao Governo do Estado, a fábrica White Martins.
‘Cena de guerra’
A cena em frente as unidades de saúde e nos hospitais de campanha montados provisoriamente em espaços públicos para receber os pacientes era de guerra, segundo o administrador e reitor da Uninorte, Iyad Amado Hajoj. Ele perdeu o pai e a mãe – o empresário Ahmed Hajoj, conhecido como “tio Armando” e a esposa dele, Zahieh Hajoj -, no mesmo dia por falta de oxigênio no Hospital Getúlio Vargas (HUGV).
“Aquele 14 de janeiro foi um dia que nunca vamos esquecer. Não há um único dia que não lembre dos meus pais, que morreram ´porque não havia oxigênio na unidade de saúde. Eles chegaram a ligar pedindo que a gente levasse o cilindro, mas depois disseram que não precisava mais. Depois descobri que os meus pais já estavam mortos quando eles fizeram esse pedido. A ausência dói, não só hoje, mas todos os dias. Viver sem eles tem sido um grande desafio, mas foi assim que nos prepararam a vida toda, enfrentar os desafios, ser resiliente, ter força e acima de tudo, muita fé”, declara ele.

Omissão do Governo
Iyad Hajoj e suas irmãs ainda aguardam uma punição aos gestores responsáveis pela crise e os pagamentos de indenizações por danos morais. Segundo ele, a família jamais recebeu suporte das autoridades governamentais.
“Nós nunca recebemos apoio do governo. Nunca fomos chamados pelas autoridades para nos pronunciarmos sobre a dor que vivemos vendo nossos parentes morrendo asfixiados. Nem na CPI realizada pelo Congresso Nacional lembraram de nos chamar, ainda assim não vamos nos calar. Agora, nos resta na Justiça a esperança para essa reparação”, afirma o administrador.
Acesso ao prontuário impedido
A luta por reparação iniciou dias após as mortes serem confirmadas. Iyad foi impedido de ter acesso aos prontuários médicos dos pais e precisou entrar com um processo para acessá-los.
“Houve uma tentativa de nos impedir de ter acesso aos prontuários porque eles deixam claro que as mortes dos meus pais estão relacionadas à crise de oxigênio. Os documentos provam que houve a omissão das autoridades, que já sabiam que iria faltar o oxigênio e, portanto, não era interessante para eles termos acesso a isso. O prontuário do meu pai cita que a morte dele aconteceu por asfixia e, no da minha mãe, foi ainda pior. O médico descreve claramente tudo o que aconteceu e pede para a equipe não tentar reanimar novamente a minha mãe porque não havia oxigênio na unidade de saúde. É uma situação difícil de acreditar”, contou ao portal Panorama Real.
O processo da família de Iyad Hajoj é acompanhado pelo advogado Rodrigo Bordalo. Segundo ele, a expectativa é que haverá uma decisão nesse ano de 2024. Outras duas famílias de vítimas da crise de oxigênio, que também aguardam as decisões, são representadas pelo profissional. Tentamos conversar com elas, mas ambas não se sentem à vontade para relembrar o trauma daquele dia 14 de janeiro.
Após três anos, apenas um caso teve reparação até agora. Em dezembro do ano passado, a Justiça Federal sentenciou a União, o Estado do Amazonas e o município de Manaus a indenizarem em R$ 1,4 milhão uma família de uma vítima fatal da covid-19, cujo quadro foi comprovadamente agravado pela falta de oxigênio.
De acordo com a sentença, Leoneth Cavalcante de Santiago deu entrada no hospital Platão Araújo, na zona Leste de Manaus, no dia 04 de janeiro de 2021. Ela tinha sintomas de covid-19 e foi diagnosticada com “estado crítico” da doença logo em seguida. Onze dias depois, Leoneth morreu em decorrência da demora no atendimento médico adequado, bem como asfixia em razão da falta de oxigênio no Estado.
No laudo médico, consta “síndrome respiratória aguda grave” e “covid-19”. O hospital em que ela estava, assim como os outros da região, não tinha oxigênio e nem Unidade Intensiva de Tratamento (UTI) disponíveis. Os seis filhos e o viúvo da vítima devem receber R$ 200 mil cada por responsabilidade civil e ato ilícito cumulado por danos morais.
O Panorama Real procurou a Justiça Federal, o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) e os ministérios Públicos do Amazonas (MPAM) e Federal (MPF) para obter informações sobre a quantidade de processos relacionados às vítimas da crise de oxigênio que estão parados e sem resposta. No entanto, até a publicação dessa matéria, nenhum dos órgãos se pronunciou sobre os questionamentos.