Extrema direita derrotada na França: ‘Cenário positivo para o país, mas delicado para o governo’, diz analista

Franceses retiraram candidaturas para evitar divisão de votos entre centro e esquerda e foram massivamente às urnas
A França, que não tem voto obrigatório, registrou neste domingo o maior comparecimento às urnas (Foto: Divulgação)

Brasil de Fato – Foi de virada. Depois de um primeiro turno com vitória histórica da extrema direita, no último dia 30 de junho, a divulgação das projeções do segundo turno da eleição legislativa na França, neste domingo (07/07), revela a maioria de votos para a coligação de partidos de esquerda, a Nova Frente Popular (NFP).

O segundo maior número de cadeiras no parlamento deve ficar com a Agrupação Nacional, coligação do presidente Emmanuel Macron. Em terceiro, o Reagrupamento Nacional (RN), liderado pela extremista de direita Marine Le Pen.

“É um cenário muito positivo para a França, mas ainda muito delicado para o governo. Que acabou saindo derrotado, quer para a esquerda, quer pelo número considerável de assentos no parlamento que foram para a extrema direita”, avalia Pablo Ibañez, professor de geopolítica da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

“Mas agora a extrema direita dificilmente vai conseguir eleger um primeiro-ministro. Essa é a condição que conseguiu ser revertida. Graças a uma mobilização popular mesmo: nas ruas, nas redes”, destaca Ibañez.

A França, que não tem voto obrigatório, registrou neste domingo o maior comparecimento às urnas em eleições legislativas das últimas quatro décadas.

Tática da retirada de candidaturas

Além disso, para a cientista política francesa Florence Poznanski, “esse resultado só foi possível porque houve o processo das desistências”.

Para evitar que o RN ocupasse mais cadeiras no parlamento, mais de 200 candidatos de centro e de esquerda se retiraram da disputa para concentrar os votos nos mais bem colocados. Assim, em distritos eleitorais onde havia três candidatos, ficaram apenas dois. Os eleitores contrários à direita concentraram seus votos em uma única opção.

“Foi inclusive por isso que a coligação de Macron teve um resultado muito melhor do que no primeiro turno. Porque a esquerda desistiu em vários distritos”, aponta Florence.

“Esse resultado mostra que o povo teve uma grande mobilização para as pessoas votarem. O que não é fácil, porque se você vota para um candidato de esquerda, você não vai facilmente votar em um candidato macronista. E vice-versa. São blocos políticos realmente distintos. Mas muita gente se mobilizou para impedir o RN”, descreve Poznanski.

Comemorações

No final da tarde, o assessor especial para a política externa do governo brasileiro, Celso Amorim, comentou o que considerou “uma grande vitória” da esquerda francesa como um sinal de que “a extrema-direita não passará”.

“Juntamente com a vitória dos trabalhistas na Grã-Bretanha, abre-se o caminho da esquerda democrática na Europa. A extrema direita não passará. Grande exemplo para a América Latina”, disse Celso Amorim.

Pouco depois, foi a vez do presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva (PT), celebrar. “Muito feliz com a demonstração de grandeza e maturidade das forças políticas da França que se uniram contra o extremismo nas eleições legislativas de hoje. Esse resultado, assim como a vitória do partido trabalhista no Reino Unido, reforça a importância do diálogo entre os segmentos progressistas em defesa da democracia e da justiça social. Devem servir de inspiração para a América do Sul”, escreveu, na rede social X, antigo Twitter.

Socialista, o senador dos Estados Unidos Bernie Sanders parabenizou a esquerda francesa pela demonstração de união frente à extrema direita. “Aqui está um fato simples: se os políticos apoiarem às famílias trabalhadoras, as famílias trabalhadoras estarão do seu lado. Acontece que a redução da idade de reforma previdenciária e o aumento do salário mínimo são muito populares. Parabéns à esquerda francesa por enfrentar o extremismo de direita e vencer”, escreveu.

Quem será primeiro-ministro francês

Com o resultado eleitoral, o primeiro-ministro da França, Gabriel Attal, anunciou que deixará o cargo na segunda-feira.

A próxima pessoa a assumir o posto precisa ser indicada com mais da metade dos votos da Câmara. No parlamento francês, composto por 577 deputados, a maioria absoluta depende de 289 cadeiras. Segundo as projeções nenhum dos blocos políticos alcançou este número e, assim, os próximos dias serão de intensas negociações.

“Agora é ver o que vai acontecer. O que a gente sabe é que Jordan Bardella, do Reagrupamento Nacional, não vai ser primeiro-ministro. E, no centro, quem tem a capacidade de negociação continuam sendo os macronistas. Porque eles podem permitir a um dos campos a construção de uma maioria governamental”, caracteriza Florence.

“A Nova Frente Popular, a esquerda, está em posição favorável para negociar, porém não tem votos suficientes para construir essa maioria sozinha. Essa é a grande dificuldade”, afirma a cientista política.

“Representantes das várias forças políticas de esquerda já apresentaram suas condições em termos de programa. Principalmente as prorrogações dos votos sobre a aposentadoria e de uma série de medidas que o governo Macron implementou”, ilustra Poznanski. “Porém, inevitavelmente, vão ter que negociar com setores macronistas”, diz ela.

“Há dúvidas se todas as forças políticas da Nova Frente Popular vão aceitar governar. Provavelmente, terão posturas distintas”, complementa.

Líder da NFP e do partido França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon declarou, neste domingo (07/07), que Macron deve “aceitar a derrota e formar governo com a esquerda”.

“Vitória com gosto amargo”

Para Flávia Loss, professora de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, “a divisão na sociedade francesa vai perdurar por muito tempo”.

Citando declarações de líderes da RN, de que o resultado do pleito foi apenas um “adiamento” da vitória da extrema direita, Loss considera que “não é o momento de relaxar”. “Essa ameaça continua. Só conseguiram barrar [a ascensão da extrema direita ao poder] mais uma vez, como conseguiram barrar, em 2002, o pai de Marine Le Pen, Jean-Marie Le Pen”.

“É uma vitória. Mas uma vitória com gosto amargo, quando se pensa no cenário político que vai continuar dividido, polarizado, radicalizado e violento nos próximos anos”, destaca Loss: “Não só na França, mas em todo o mundo”, conclui.