Mapeamento fundiário de comunidades da BR-319 inicia neste domingo

Ação será realizada pela DPE-AM e faz parte da primeira etapa do projeto "Gente da 319"

DEP-AM promove regularização fundiária na BR-319 (Foto: Luiz Felipe Santos/DPE-AM)

Com o intuito de promover a regularização fundiária em uma das rodovias mais emblemáticas do Amazonas, a Defensoria Pública do Estado (DPE-AM) inicia, neste domingo (16/08), o mapeamento de terras irregulares e a escuta de moradores que vivem às margens da BR-319, que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO). Com duração total prevista de 36 meses, a iniciativa começará a primeira etapa de sua execução com o mapeamento e o diagnóstico territorial das comunidades Purupuru, Araçá, Igapó-Açu e Realidade.

Segundo a DPE-AM, esta primeira fase tem previsão de seis meses de duração e contará com o suporte de engenheiros, técnicos e defensores públicos da Defensoria.

Ainda conforme a DPE-AM, após o mapeamento em toda a extensão da BR-319, o projeto avança para a segunda etapa, uma fase intensiva de atendimento e regularização, entre o sétimo e o vigésimo quarto mês, com ações de atendimento jurídico e social, coleta de documentos e mediação de conflitos.

Por fim, a terceira etapa será de consolidação territorial, até o trigésimo sexto mês, voltada à conclusão dos processos de regularização fundiária (REURB) e à entrega de um relatório fundiário completo ao Estado do Amazonas e às prefeituras envolvidas.

De acordo com o defensor público geral, Rafael Barbosa, a meta é atender 5 mil famílias, viabilizar a regularização de 2 mil imóveis, realizar cinco ações itinerantes e três expedições por ano de execução, além de promover ao menos dez mediações de conflitos comunitários.

“Temos as etapas do projeto definidas, mas a maneira como vamos executar essas etapas ainda está em discussão e construção com a população. Quando o asfalto passar, a especulação imobiliária vai surgir e essas famílias vão precisar ter a segurança jurídica das suas casas. Diante desses desafios, iremos fazer nosso trabalho para garantir que todos tenham seus direitos garantidos”, destacou.

Audiência Pública

O mapeamento fundiário na BR-319 faz parte do projeto “Gente da 319”, da DPE-AM. Na semana passada, foi realizada, em Manaus, a primeira audiência pública no âmbito da iniciativa.

Uma das participantes foi Léia Lima, de 58 anos, que vive com o marido e os quatro filhos na comunidade São João, no km 35 da BR-319. “Estamos há mais de 40 anos na área da 319. Nós temos a posse, mas não temos a titulação e, por isso, viemos todos para a primeira audiência pública e estaremos em todas as outras”, disse.

Léia lidera o “Coletivo de Mulheres Agricultoras e Empreendedoras da BR-319”. Ela afirma que o coletivo é um meio de unir forças com outras mulheres que, além da insegurança jurídica em relação às suas casas, precisam enfrentar as dificuldades impostas pela precariedade e distância da rodovia.

“É muito difícil, porque, em uma emergência ou para acesso a outros serviços básicos, a gente precisa pegar o ramal, depois sair para a BR-319 para chegar até o Careiro da Várzea, pagar para atravessar na balsa ou na lancha e só depois chegar em Manaus”, desabafou.

Ramais serão visitados

O Ramal Floresta será um dos pontos visitados na primeira etapa. Lá, David Lima, de 46 anos, vive com a esposa e os três filhos há mais de uma década.

Atualmente, ele trabalha como agente comunitário de saúde e percorre os principais ramais e trechos da BR-319. Segundo David, a expectativa para as próximas etapas do projeto da Defensoria é grande.

“Essa visita vai ser muito importante, porque vai nos garantir nosso título lá na frente. Com o documento em mãos, vamos ganhar direitos, como acesso ao crédito, a empréstimo para melhorias dos nossos sítios. Esse projeto é ótimo, porque traz esperanças. Às vezes, nos falta conhecimento para entender certas questões e a Defensoria está nos explicando como vai funcionar tudo”, pontuou.

Parceria com universidades e órgãos públicos

Na primeira audiência pública, estiveram presentes representantes do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedurb), do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), do Comando Militar da Amazônia (CMA), do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Amazonas (Crea), além da presidência das Câmaras de Beruri e Careiro.

Entre os que deram sua contribuição para o debate, o diretor do Centro de Ciências do Ambiente da Ufam, Prof. Dr. André Mendonça, destacou a importância de colocar a Academia no centro da discussão.

“Enquanto Universidade Federal do Amazonas, a gente entende que o trabalho da Defensoria em reunir a população junto aos entes e gestores das instituições que podem ajudar na regularização fundiária é essencial para que, juntos, possamos consolidar soluções. Temos um campus em Humaitá e temos nossas próprias vivências em relação à BR-319, então podemos trazer nossas contribuições para o debate”, pontuou.

A presidente da Câmara Municipal de Careiro, Berenice Bastos, também ressaltou o impacto da audiência pública e da próxima etapa de execução do projeto.

“Toda audiência pública é importante, porque ela ouve a sociedade. Nós, que atuamos em defesa do povo, escutamos há anos as dores dos agricultores, comerciantes e moradores da BR-319. A partir de agora, regularizando essas terras, eles terão o direito de dizer que a moradia é deles”, concluiu.

Veja os caminhos para a regularização fundiária:

  • CDRU (Concessão de Direito Real de Uso): quando a terra está localizada em área ambiental e cabe à Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) emitir o documento;
  • Assentamento: título emitido pelo Incra para lotes de terra localizados em assentamentos da reforma agrária;
  • Cessão de uso: quando o proprietário do terreno transfere o direito de uso do local para outra pessoa, mas não cede o direito de propriedade;
  • Legitimação Fundiária: quando o título do terreno é entregue de forma definitiva ao morador que está ocupando a área, sem qualquer ligação com o proprietário anterior;
  • Usucapião: processo que pode ser feito do início ao fim pela Defensoria, que ocorre quando uma pessoa mora há anos em um terreno sem que o proprietário legal reconheça a posse, permitindo que o morador atual ganhe o direito ao título.
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