Militares detalham tentativa de golpe em áudios capturados pela PF

Bolsonaro é apontado como mentor do plano golpista (Foto: Divulgação)

Áudios obtidos pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre os planos golpistas para manter Jair Bolsonaro (PL) na Presidência mostram a comunicação de militares enquanto tramavam o golpe de estado.

Os 52 áudios mostram a participação ativa do general Mário Fernandes, um dos presos na operação da PF, na articulação golpista, e conversas com outros militares como o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, e o coronel reformado Reginaldo Vieira de Abreu.

O ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, afirma a Mário Fernandes que vai “conversar” com o então presidente da República sobre a possibilidade de autorizar a ação dos militares no que sugere ser a autorização para o golpe de Estado. A fala é uma resposta ao general, que, segundo as investigações da PF, foi um dos principais articuladores da intentona golpista.

“Não, pode deixar. Vou conversar com o presidente. O negócio que ele tem essa personalidade às vezes, né? Ele espera, espera, espera, espera para ver até onde vai e ver os apoios que tem. Só que, às vezes, o tempo tá curto, né? Não dá para esperar muito mais passar, né? Dia 12 teria que ser antes do dia 12, né, mas com certeza não vai acontecer nada. E, sobre os caminhões, pode deixar que eu vou comentar com ele porque o Exército não pode. Papa mosca de novo, né, a área militar, ninguém vai se meter até porque a manifestação é pacífica, né? Ninguém tá fazendo nada ali”, diz Mauro Cid a Mário Fernandes.

“Vai ser guerra!”

Em conversa com Mário Fernandes, o coronel Roberto Criscuoli falou em “guerra civil agora ou guerra civil depois” ao citar uma suposta resposta popular à vitória de Lula. Para ele, uma decisão tem que ser “tomada urgente” e o presidente – então, Bolsonaro – “não pode pagar pra ver”.

“Ô Mário, bom dia. Mário, eu tava até conversando agora com o pessoal aqui, cara. Se nós não tomarmos a rede agora, depois eu acho que vai ser pior. Na realidade vai ser guerra civil agora ou guerra civil depois. Só que a guerra civil agora tem um significativo, o povo tá na rua, nós temos aquele apoio maciço. Daqui a pouco nós vamos entrar numa guerra civil, porque daqui a alguns meses esse cara vai destruir o exército, vai destruir tudo. Aí o povo vai dizer assim, agora que mexeram com você, vocês vão pra rua. Se você resolve tomar… Então vai ficar feio. Porque ele vai destruir todo o exército. Ele vai mandar todos os 4 estrelas embora. Vai ficar com os G. Dias (general Gonçalves Dias) e alguns outros aí. Cara, não vai ficar legal, cara. É melhor ir agora. O povo tá na rua e pedindo, que, daqui a pouco, nós vamos ir por interesse próprio. Aí não vale. Aí eu não vou. Aí eu não vou. Então é a hora de ir agora, cara. Também concordo com esse texto que tu mandou. Pô, tô dentro. Mas tem que ir agora que o povo está pedindo. Não porque vão mandar os generais pra reserva. Então eu acho que essa decisão tem que ser tomada urgente, cara. E o presidente não pode pagar pra ver também, cara. Ele vai destruir o nosso país, cara. O argentino já esteve aqui com o chapéu na mão, cara. Vai esperar virar uma Venezuela pra virar o jogo, cara? Democrata é o cacete. Não tem que ser mais democrata mais agora. Ah, não vou sair das quatro linhas. Acabou o jogo, pô. Não tem mais quatro linhas. Agora o povo da rua tá pedindo, pelo amor de Deus. Vai dar uma guerra civil? Vai dar, eu tenho certeza que vai dar, porque os vermelhos vão vir feroz. Mas nós estamos esperando o quê? Dando tempo pra eles se organizarem melhor? Pra guerra ser pior? Irmão, vamos agora. Fala com o 01 aí, cara. É agora. Hoje eu tô dentro, amanhã eu não tô mais não. Amanhã é o que eu quero dizer daqui a pouco. Por interesses outros eu não vou. Nem eu e nem a turma daqui. Um saco cheio de explicar pro civil que as coisas tão sendo tomadas, que tem um cara lá que tá fazendo isso, tem um pessoal que vai falar, tem um pessoal que tá acusando, tamo pegando prova. A porra, não dá mais, cara. Não dá mais. Não é mais pra ter prova não, quer mais prova do que já teve? E o povo tá na rua pedindo? Vambora, pô! Pau!”, disse Criscuoli durante conversa com Mário Fernandes.

“Como foi em 64”

Em conversa com um militar, Mário Fernandes fala em “clamor popular, como foi em 64 (ano do golpe militar)” para convencer o Alto Comando das Forças Armadas a endossar a tentativa de golpe. Na conversa, Fernandes fala em “inflamar a massa” para que o “start” do golpe seja “feito pela sociedade”.

“Tá na cara que houve fraude, porra. Tá na cara, não dá mais pra gente aguentar essa porra. Tá foda. Tá foda. E outra coisa: nem que seja pra divulgar e inflamar a massa, pra que ela se mantenha nas ruas, e aí, sim, talvez seja isso que o Alto Comando, que a Defesa quer. O clamor popular, como foi em 64. Porque, como o senhor disse mesmo, boa parte do Alto Comando, pelo menos do Exército, não tá muito disposto, né? Ou não vai partir pra intervenção A não ser que o start seja feito pela sociedade. Pô, Geraldo, reforça isso aí. Eu tô fazendo meu trabalho junto à brigada e o pessoal de divisão da minha turma, cara. Força, kid preto. Um bom final de semana e que esse final de semana e a próxima semana nos tragam um acalento. A gente tá precisando”.

“Blinda Bolsonaro”

Mario Fernandes: “Blinda ele [Bolsonaro] contra qualquer desestímulo”
Fernandes pede para general e então ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Luiz Eduardo Ramos, blindar Bolsonaro contra “qualquer desestímulo” que o fizesse desistir dos “intentos antidemocráticos”.

“Força, Kid Preto. Kid preto, algumas fontes sinalizaram que o comandante da Força sinalizaria hoje, foi ao Alvorada para sinalizar o presidente que ele podia dar a ordem. Se o senhor tá com o presidente agora e ouvir a tempo, porr*, blinda ele contra qualquer desestímulo, qualquer assessoramento diferente. Isso é importante, Kid preto. Força”, disse Fernandes a Ramos.

Golpe “teria que ser antes do dia 12”

Cid sinalizou que uma “consumação” do suposto golpe de Estado teria que ser “antes do dia 12” de dezembro”, se referindo à data da diplomação da chapa de Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“Pode deixar, general. Vou conversar com o presidente [Bolsonaro]. Mas ele tem essa personalidade às vezes né. Ele espera, espera, pra ver até onde vai. E o tempo está curto né, não dá para esperar muito mais passar. Teria que ser antes do dia 12”, disse Cid ao general Mario Fernandes, que havia perguntado se o ex-presidente poderia atuar mais no plano.

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