Pesquisador ofendido por Plínio Valério afirma que senador cometeu crime e pede renúncia imediata

Lucas Ferrante foi o pesquisador que emitiu um alerta, seis meses antes, sobre os riscos de uma segunda onda de Covid-19 no Amazonas
Lucas Ferrante deve entrar com representação contra as falas do senador Plínio Valério (Foto: Reprodução)

Após ser chamado de “imbecil”, “babaca” e “cientista de bosta” pelo senador Plínio Valério (PSBD), no plenário do Senado Federal, na última quarta-feira (21/02), o pesquisador Lucas Ferrante decidiu falar sobre o assunto em entrevista exclusiva ao Panorama Real. O pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) criticou a postura do parlamentar, ressaltando que o político cometeu um crime e já pode cumprir a promessa feita na tribuna de renunciar ao mandato.

“Esses ataques e xingamentos proferidos pelo Plínio Valério dizem muito mais a respeito dele do que sobre nós pesquisadores. Isso mostra o quanto nós estamos elegendo políticos que não deveriam estar nesses cargos. É lamentável a postura do senador e isso mostra, ao mesmo tempo, que ele não possui argumentos técnicos para rebater os nossos apontamentos científicos. A gente precisa lembrar que opinião não contradiz dados científicos. Lembrando que a liberdade de expressão de um parlamentar não dá o direito de ofender ou cause uma injúria a outra pessoa. Ela não dá o direito de cometer um crime, que foi exatamente o que ele cometeu”, destacou Ferrante.

Ataque no Senado

O ataque de Plínio Valério aconteceu após Lucas Ferrante e o pesquisador Guilherme Becker, este último da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, publicarem um artigo  na revista científica Nature sobre o risco de disseminação de doenças de origem animal, que podem desencadear novas pandemias, por conta do reasfaltamento de trecho da BR-319 (Manaus-Porto Velho/RO).

Irritado, Plínio Valério não gostou do resultado da pesquisa. Segundo ele, a BR-319 é essencial para o Amazonas se conectar ao território nacional.

“Olha só o que eles querem atribuir ao asfaltamento de uma rodovia amazônica: surgimento de novas pandemias. Esses imbecis, babacas, cientistas de bosta sequer notam e sabem que a rodovia já está aberta, cacete! A rodovia já está aberta. E esses imbecis brasileiros que retransmitem, que divulgam essas imbecilidades têm que entender que a rodovia está aberta. Não se vai derrubar uma só árvore. E o meu mandato, eu coloco em jogo. Se derrubar uma só árvore nesse trecho da BR-319, eu renuncio agora ao meu mandato”, afirmou bastante exaltado Plínio Valério na ocasião.

Por outro lado, Lucas Ferrante defende a pesquisa e rebateu o senador.

“Este bloco da floresta é o maior reservatório de patógenos do nosso planeta, tais como vírus, fungos, bactérias e príons. O asfaltamento aumentará tanto o desmatamento como a mobilidade humana na região. Estes fatores tendem a propiciar saltos zoonóticos que podem resultar em uma sequência de pandemias e no fortalecimento da disparidade na saúde pública”, explicou.

Renúncia

Ainda em seu discurso, Plínio Valério repetiu uma promessa feita durante a CPI das ONGs, que foi criada e presidida por ele. “O meu mandato, eu coloco em jogo: se derrubar uma só árvore nesse trecho da BR-319 eu renuncio agora ao meu mandato”, prometeu.

Lucas Ferrante comentou a fala do senador, baseado em estudos sobre o desmatamento da região, e disse que o parlamentar já pode pedir a renúncia imediatamente.

“Em um estudo publicado pelo nosso grupo demonstra que as taxas do desmatamento no trecho do meio da BR-319 são 2.5 vezes maior do que as taxas de desmatamento em todo o bioma da Amazônia. É uma taxa de aceleração de perda de floresta muito superior no que se observa na Amazônia como um todo, ou seja, o senador pode renunciar hoje mesmo. O que a gente observa que são falas jogadas numa tribuna de uma pessoa que não está de fato preocupada com a população ou o dano ambiental do empreendimento”, observou.

Plínio foi eleito senador em 2018, assumiu em 1º de janeiro de 2019 e tem vaga no Senado até 31 de dezembro de 2026.

Negacionismo da classe política

Lucas Ferrante foi o pesquisador que emitiu um alerta, seis meses antes, sobre os riscos de uma segunda onda de Covid-19 no Amazonas.

“Eu fui o pesquisador que fez o alerta sobre os efeitos da segunda onda de Covid-19 e, na época, houve o mesmo negacionismo da classe política. Inclusive, o alerta foi feito na mesma revista e nós estamos falando do maior períodico cientifíco do mundo. Então, esse negacionismo vai repercurtir na região mais uma vez. É a população que tende a sofrer com isso. Negar esse tipo de informação é colocar a região cada vez mais em risco, atrapalhando principalmente a vida dos mais vulneráveis”, disse o pesquisador ao Panorama Real.

Os pesquisadores apontaram também que a pavimentação da rodovia visa a facilitar o acesso a áreas de exploração de petróleo e gás. Em 13 de dezembro, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) vendeu os direitos de exploração em 602 áreas, sendo 21 delas na bacia amazônica, acessadas por meio da BR-319 e de estradas secundárias.