‘Podemos chegar a 2030 com cerca de 30% da população com obesidade’, diz pesquisador da Fiocruz

A ideia é as pessoas conseguirem fazer escolhas alimentares de uma forma mais consciente

Brasil de Fato – Obesidade é um problema global crescente e uma preocupação maior nos países de renda média e baixa. No Brasil, uma a cada quatro pessoas da população adulta está obesa. O dado é apontado pela pesquisa Vigilância de Fatores de Risco de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico de 2023, um monitoramento anual do Ministério da Saúde que mostra uma parte do cenário atual da obesidade no país.

Vale lembrar que o 4 de março foi o Dia Mundial da Obesidade. A data alerta para a necessidade de políticas públicas e debate sobre essa condição que cresce cada vez mais no mundo. Eduardo Nilson, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, diz que a obesidade pode desencadear outras doenças; e está associada ao maior risco de problemas cardiovasculares, que são a maior causa de adoecimento e morte em todas as populações do mundo.

Além disso, o sobrepeso ainda pode desencadear outras doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes e alguns tipos de câncer, entre outras, que aumentam com a própria obesidade, explicou ele.

“É importante que a gente ressalte sempre que essa questão da obesidade é um problema global crescente e maior ainda é uma preocupação nos países de renda média e baixa, incluindo o próprio Brasil e nós temos um grande problema que não são somente adultos que estão com obesidade, mas também crianças e adolescentes e isso gera uma precocidade de doenças, mas também uma maior preocupação: a obesidade e as comorbidades na vida adulta”, explica.

Segundo o especialista, a obesidade é considerada uma doença quando o Índice de Massa Corporal (IMC), de uma pessoa é igual ou superior a 30. A condição é multifatorial e para além da alimentação, índices socioeconômicos, idade, predisposição genética e trabalho, por exemplo, podem desencadear a obesidade.

“Vamos ter as condições de trabalho que precisam ser modificadas cada vez mais. Nós trabalhamos sentados, menos atividade física, menos tempo ativo, inclusive no próprio lazer e, em todo esse conjunto, nós temos a vulnerabilidade maior das populações mais pobres, porque são aquelas que estão submetidas a condições de vida que favorecem ainda menos as escolhas saudáveis, seja pela questão de preço de alimentos, de acesso à atividade física e outros”, afirma.

Mas o IMC também pode ser questionado como único dado capaz de definir uma pessoa com obesidade, uma vez que podem ser avaliados também a massa muscular, os hábitos e, claro, a alimentação. O alerta é de Mariana Ribeiro, nutricionista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

A ideia é as pessoas conseguirem fazer escolhas alimentares de uma forma mais consciente.

“É preciso entender individualmente a composição corporal de cada pessoa. O IMC pode até estar alto, mas ela pode ter, por exemplo, muito músculo e não gordura. São especificidades que devem ser levadas em conta”, adverte.

Ou seja, nem toda pessoa obesa pode estar doente. Uma alimentação baseada em alimentos in natura, associada a exercícios físicos e ao cuidado com a saúde mental, são algumas formas de lidar com a obesidade de uma maneira saudável, aponta Mariana. Mas, também, é preciso olhar para a responsabilidade da indústria alimentícia. Em 2023, o Idec conseguiu aprovar na Anvisa regras melhores para rótulos de alimentos, por meio de uma campanha permanente da organização.

“Então, a ideia dessa campanha é alertar em relação à lupa, mas também as outras informações que estão no rótulo para, a partir disso, as pessoas conseguirem fazer escolhas alimentares de uma forma mais consciente, optando por produtos que sejam também mais saudáveis”, diz Mariana.

Outro ponto é a mudança na carga tributária de alimentos, como aponta o pesquisador Eduardo Nilson. “Vale destacar que temos uma reforma tributária em curso, que traz ao mesmo tempo a oportunidade de aplicarmos o imposto seletivo sobre alimentos ultraprocessadas e bebidas, que estão sabidamente associados ao sobrepeso e à própria obesidade [e outras doenças] e, ao mesmo tempo, isentar uma cesta básica que seja baseada em alimentos in natura ou minimamente processados”, projeta.

O pesquisador estima que se nada for feito para conter o avanço da má-alimentação associada ao sedentarismo na população brasileira, o país pode chegar a 2030 com prevalências próximas a 70% de excesso de peso entre adultos e de 30% de obesidade entre os adultos.

“Isso traz uma carga econômica, estimativas nossas mostram que se nada for feito essas mesmas prevalências vão se traduzir e mais de cinco milhões de novos casos de doenças crônicas associadas à obesidade”, acrescenta.