Protestos pró-Palestina nos EUA podem ter peso nas eleições presidenciais, diz analista

Imagens de violência policial contra estudantes, professores e jornalistas em diferentes locais têm repercutido nos EUA

Brasil de Fato – Marcados pelo aumento da repressão contra os estudantes, os protestos nas universidades dos Estados Unidos contra o massacre de Israel na Faixa de Gaza têm ganhado intensa repercussão dentro e fora do país, com a adesão de universitários da Itália e agora também da França com a ocupação da universidade Sciences Po, em Paris.

Muitos estudantes que iniciaram o movimento na Universidade de Columbia em Nova York enfrentaram detenções, medidas disciplinares e repressão policial, convocada pela administração da faculdade para colocar fim ao protesto.

Imagens de estudantes, professores e jornalistas violentamente detidos por agentes policiais em diferentes campi têm repercutido na sociedade estadunidense e podem influenciar o cenário eleitoral deste ano.

Na avaliação do professor adjunto de Ciências Humanas e Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC Flávio Thales, o aumento do apoio à Palestina entre os jovens estadunidenses se apresenta como um problema para a tentativa de reeleição do presidente democrata Joe Biden, que concorre ao próximo mandato para a Casa Branca com o ex-presidente republicano Donald Trump.

“Diferentemente de outros anos eleitorais, o tema da política externa tem sido importante para o eleitorado estadunidense e pode influenciar a corrida para a Casa Branca. O governo procura se equilibrar entre a proteção de um aliado histórico e estratégico na região e a contenção de suas ações mais violentas sobre os palestinos.”

O evento passou a ser comparado a outra mobilização histórica nas universidades estadunidenses durante a guerra do Vietnã (1955-1975), tendo como epicentro também o campus da Universidade de Colúmbia em Nova York em 1968. Uma diferença fundamental entre esse eventos, destaca Thales, é que, embora seja um ator fundamental no conflito em Gaza, intervindo com recursos para Israel e vetos no Conselho de Segurança da ONU, os Estados Unidos não têm participação direta com tropas ou ataques no atual conflito do Oriente Médio.

“Nesse sentido, não há, por exemplo, a experiência de veteranos que retornam aos EUA, feridos ou não, que contribuem com narrativas que justificam ou condenam envolvimento do país em um conflito internacional. No caso do Vietnã, a morte de soldados, assim como de feridos que relatavam os horrores da guerra, foi importante para reforçar o movimento em 1968.”

Outra diferença importante em relação ao cenário atual, aponta Thales, é que os protestos contra a guerra do Vietnã foram marcados, além do envolvimento estudantil, pela organização de uma nova esquerda e a ascensão de movimentos radicais no país, com pautas anticapitalistas.

“O momento atual é de grande conflito e polarização entre os estadunidenses, mas os protestos que se alastraram parecem, por enquanto, um movimento liderado apenas por universitários, mas que pode ganhar uma maior amplitude. A oposição à Guerra do Vietnã fazia parte de um quadro mais amplo de organizações políticas que canalizavam as insatisfações sociais. Não há uma posição anticapitalista como foi comum na década de 1960, mas uma demanda pelo boicote à empresas e organizações que tem relação com o Estado de Israel.”