Saber amazônico: Tacacazeiras são agora patrimônio cultural do Brasil por decisão do Iphan

Segundo o Iphan, o ofício de tacacazeira não se restringe a uma receita, mas compreende um conjunto integrado de práticas agrícolas, saberes tradicionais, técnicas culinárias, modos de comercialização, formas de sociabilidade e sentidos simbólicos

As tacacazeiras são responsáveis por prepararem a famosa iguaria amazônica tacacá (Foto: Anwar Assi/Panorama Real)

No fim da tarde, em uma boa cuia, um tacacá servido quentinho, nas cidades amazônicas, é um prato indispensável. Feito de produtos da mandioca, camarão seco e jambu, a planta do tremor, a iguaria tem origem indígena e é preparada pelas tacacazeiras.

Agora, o ofício dessas cozinheiras, guardiãs da receita, foi considerado patrimônio cultural do país pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural Nacional (Iphan). O reconhecimento foi formalizado, na terça-feira (25/11), por meio do Ofício das Tacacazeiras da Região Norte, que foi inscrito no Livro dos Saberes, destacando a importância das mulheres amazônicas na preservação de saberes ancestrais ligados à culinária regional.

“É o reconhecimento dos saberes e tradições da região norte. A região norte deve ser valorizada e fala sobre o que é o Brasil”, disse o presidente do Iphan, Leandro Grass.

“Mantenho o legado da minha mãe, com modernidade. Todas as tacacazeiras estão em festa”, disse Ivanete Pantoja, presidente da Associação das tacacazeiras de Belém (PA).

Segredos de família

Em geral, as receitas de tacacá são segredos de família passados de geração em geração. Cada uma tem seu jeito de equilibrar alcalinidade da goma e acidez do tucupi, temperados com chicória, alfavaca e até alho, variando em cada barraca.

A partir do registro como patrimônio, agora cabe ao Iphan a elaboração de um plano de salvaguarda para esse bem. A medida deve incluir formas de divulgação gastronômica, gestão dos pequenos negócios, acesso a matérias primas e melhoria dos pontos de venda.

Os pontos de venda variam entre bancas, barracas, quiosques, carrinhos, boxes de mercado, kombis, lanchonetes e até restaurantes especializados. Mais do que locais de comércio, esses espaços são pontos de encontro e sociabilidade, onde se reforçam laços comunitários e a identidade amazônica.

“Criei meus filhos com o tacacá, sou feliz pela minha profissão. Obrigado ao Iphan por toda essa estrutura”, disse a tacacazeira de Roraima, Irene Morais. 

Orgulho

“Através do tacacá eu criei e eduquei vários netos. É de geração para geração”, disse Maria de Nazaré , tacacazeira do Amazonas. Com 71 anos, tia Naza, como é conhecida em Manaus, conta que aprendeu a fazer o prato com a avó e a mãe. Faz 15 anos que a venda do produto é sua principal fonte de renda.

“O tacacá sempre existiu na minha vida, eu vendia no fim da tarde, depois do trabalho, em frente de casa. Formei dois netos advogados, dois médicos e um jornalista”, contou Maria de Nazaré. “Todos me ajudaram a servir o tacacá na banquinha”, lembrou.

Nazaré esteve em Brasília esta semana e participou de reunião do Iphan onde comemorou a decisão. “Ser tacacazeira é ter orgulho dos nossos ingredientes únicos. A culinária amazônica é viva, potente e merece ser celebrada”, afirmou.

Com o passar dos anos, o caldo de tacacá aceitou variações. É servido com caranguejo, pipoca e até na versão vegana, com palmito ou azeitona. Também não é necessário mais procurar uma barraca na rua para sorver. Aplicativos entregam o prato em qualquer lugar.

As tacacazeiras garantem que, no isopor, também é bom. “Há quem diga que, se não for na cuia, não tem o mesmo sabor e eu sou uma delas, prefiro ir na banca, em uma das esquinas de Belém, onde estão os mais tradicionais, e experimentar”, ponderou a feirante Jaqueline Soares Fonseca, em vídeo, sobre o tacacá. O material foi exibido na reunião do Conselho Consultivo do Iphan.

Pesquisa

Para tornar o ofício de tacacazeira patrimônio cultural, o Iphan organizou um projeto de pesquisa e documentação sobre a tradição envolvida no preparo do prato e os saberes relacionados, desde a compra dos ingredientes até a comercialização. O trabalho foi realizado em parceria com a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). A equipe esteve em sete estados documentando e ouvindo as cozinheiras sobre o registro como patrimônio cultural.

No dossiê que fundamentou a decisão de inscrever o ofício no Livro dos Saberes, o Iphan explicou que as tacacazeiras são “detentoras de saberes e segredos” e dão continuidade “não apenas aos modos de fazer de um elaborado prato, mas a formas de sociabilidade”. Essas mulheres também são responsáveis por passar  adiante, passo a passo, um “conhecimento exclusivo”, de modo que a prática não se perca”, complementa o dossiê.

O tacacá é tipicamente indígena, mas sua comercialização foi registrada no final do século 19, com a expansão urbana na amônia e a escassez de trabalho. Nesses momentos, mulheres passaram a vender alimentos na rua como estratégia de sobrevivência, conciliando o cuidado com a casa e o sustento.

O trabalho da Ufopa de documentação do tacacá contou com apoio de uma emenda parlamentar do senador Jader Barbalho (MDB-PA). Ele comemorou a decisão do Iphan. “O tacacá é muito mais do que um prato. É o sabor do Pará servido em cuia”, afirmou, em nota.

Pedido de registro

O pedido de registro começou em 2010, quando o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP) solicitou o reconhecimento, como parte de um trabalho maior sobre os saberes relacionados à mandioca no Pará. Em 2024, o processo ganhou novo impulso com pesquisa realizada em parceria com a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), que ouviu mais de 100 tacacazeiras em sete estados da Região Norte: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

As tacacazeiras são, em sua maioria, mulheres que transformaram o preparo e a venda desse prato em seu meio de vida, ocupando praças, esquinas, feiras e mercados das cidades amazônicas. Segundo a pesquisa, quase 70% das pessoas que trabalham com tacacá são mulheres, muitas delas de meia-idade ou mais velhas, que aprenderam o ofício com suas mães, avós ou sogras e hoje transmitem esse conhecimento para as novas gerações.

Virou patrimônio cultural, e agora?

Com o reconhecimento oficial, o Iphan agora trabalhará na elaboração de um Plano de Salvaguarda que contempla cinco eixos de ação: gestão e empreendedorismo; acesso a matérias-primas e insumos; melhoria das condições de comercialização; divulgação cultural e gastronômica; e direito à cidade, garantindo melhores condições de infraestrutura nos pontos de venda.

O objetivo é não apenas preservar o saber-fazer, mas melhorar as condições de trabalho das tacacazeiras, fortalecer sua organização coletiva e valorizar seu papel como guardiãs de um patrimônio cultural que identifica e distingue a Amazônia brasileira.

Com informações da Agência Brasil e do Iphan

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