Venezuela realiza exercícios militares em todo o território para afastar ‘ameaças externas’

O responsável pelas operações é o Alto Mando Militar (Foto: Prensa Presidencial)

Brasil de Fato – As Forças Armadas da Venezuela realizam nesta quarta (22/01) e quinta-feira (23/01) uma nova bateria de exercícios militares. Chamados de Escudo Bolivariano, os exercícios são realizados em todas as regiões do país e mobilizam cerca de 150 mil militares. O responsável pelas operações é o Alto Mando Militar, que inclui, além das cinco forças, o Ministério da Defesa.

Ao todo, serão 290 exercícios que mobilizarão 159 navios, 50 aviões e 250 veículos militares pesados, como tanques e artilharia. O exercício é realizado anualmente e completa sua 10ª edição em 2025. Segundo o comandante das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB), general Domingo Hernández Lárez, o Escudo Bolivariano começou como treinamento militar, mas se desenvolveu e se transformou em uma conjugação de forças populares, militares e policiais.

Os exercícios são realizados em meio a denúncias do governo contra supostas tentativas de ataques internos, que seriam realizados pela extrema direita venezuelana, e externos. O presidente Nicolás Maduro afirmou que as forças de segurança conseguiram desarticular planos golpistas nos últimos anos e “desmembrar grupos pelas suas raízes”.

“Este deve ser o exercício mais completo e perfeito do ponto de vista da defesa do território. Se queres a paz, prepara-te para defendê-la e construí-la. Temos o controle total sobre os instrumentos para facilitar cenários intervencionistas na Venezuela que foram coordenados pela direita interna e global, e que a nação tem enfrentado com sucesso. Temos conseguido desmembrar estes grupos criminosos pelas suas raízes. Com algumas exceções, esses grupos foram derrotados e eliminados”, afirmou o presidente.

Em setembro, o governo anunciou ter apreendido 400 fuzis e 6 pessoas envolvidas no que as forças de segurança chamaram de um “plano de desestabilização” que tinha como objetivo matar o presidente Nicolás Maduro e a vice Delcy Rodríguez.

Além de envolver venezuelanos, o governo denunciou a participação de outras lideranças globais. Naquela ocasião, o ministro do Interior e Justiça, Diosdado Cabello, apresentou os armamentos e munições apreendidos que tinham uma inscrição afirmando que as armas são de uso exclusivo dos Estados Unidos e não poderiam ser negociados.

Os exercícios dessa vez tiveram como foco a defesa territorial principalmente na fronteira com a Colômbia. A região é motivo de preocupação para o governo da Venezuela, que, ao longo de 2024, denunciou uma série de planos que seriam realizados nos estados de Táchira, do lado venezuelano, e La Guajira, em território colombiano.

A primeira das denúncias foi feita pelo Maduro em março de 2024. Na ocasião, o mandatário afirmou que o ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe e o fundador do partido opositor venezuelano Vontade Popular, Leopoldo López, planejaram “ataques terroristas” contra a Venezuela. Segundo o mandatário, os planos estavam sendo articulados com paramilitares para serem realizados na fronteira com a Colômbia.

Uribe pediu em 12 de janeiro que o governo de seu país promovesse uma intervenção militar na Venezuela para impor “novas eleições”. Em discurso para apoiadores em Cúcuta, cidade que faz fronteira com a Venezuela, ele chamou Maduro de “golpista e ditador”.

Em resposta, a Assembleia Nacional da Venezuela aprovou uma moção nesta terça (22) declarando tanto Uribe quanto o ex-presidente colombiano Iván Duque como “inimigos públicos”.

Para o chefe do programa de mestrado de História Militar da Universidade Militar Bolivariana de Venezuela, Henry Navas Nieves, os exercícios são uma forma não só de colocar à prova a capacidade militar venezuelana, como também mostrar força de auto defesa em meio a um contexto de “ameaças externas”. Como exemplo, ele lembrou dos recentes exercícios militares realizados pela Guiana com os Estados Unidos.

“Nós não podemos ignorar que nosso país é alvo de ameaças de ataques de diferentes frentes, que representam uma ameaça à soberania nacional. A própria Guiana já está realizando operações militares com os Estados Unidos. Um elemento fundamental é a dissuasão e persuasão para qualquer um que pretenda ameaçar a soberania nacional. Esses exercícios são usados para apresentar uma linha de que não vai ser simples atacar a Venezuela”, afirmou ao Brasil de Fato.

Outro ponto destacado pelo professor é que os exercícios são usados também para mostrar uma articulação entre Forças Armadas e sociedade civil. A estrutura militar da Venezuela é diferente do Brasil. Além do Exército, Marinha e Aeronáutica, o país conta também com a Guarda Nacional Bolivariana e a Milícia Bolivariana.

A Guarda é responsável por fazer o trabalho de polícia administrativa, investigações criminais – como a polícia civil brasileira – e auxiliar outras forças no país, a partir da ocupação do território. Já a Milícia Bolivariana é um grupo formado em 2009 que tem pessoas da sociedade civil em seus quadros, não militares. Eles, no entanto, recebem treinamento para defesa pessoal e fiscalização do território em seus diferentes contextos (urbano e rural).

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