‘Ainda temos dificuldade para construir uma sociedade igualitária’, diz presidente da UBM, Vanja Andréa

A amazonense Vanja Andréa milita há 28 anos em movimentos de mulheres e atualmente é presidente nacional da UBM (Foto: Reprodução pessoal)

O Brasil tem avançado na adoção de uma legislação que beneficia os direitos das mulheres, principalmente, no primeiro ano do atual mandato do presidente Lula. Porém, ainda é preciso avançar mais, pois não basta só criar leis, mas, também, aplicá-las para que elas possam valer de verdade e garantir os direitos das mulheres.

A análise é da amazonense Vanja Andréa Reis dos Santos, 56 anos, presidente nacional da União Brasileira de Mulheres (UBM), uma das maiores entidades deste segmento no país. “É fácil fazer uma lei e colocar no papel, mas não é fácil essa lei ser efetivada no dia a dia das mulheres”, disse Vanja, em entrevista exclusiva concedida ao portal Panorama Real, na mesma semana que se comemora o Dia Internacional das Mulheres, celebrado na última sexta-feira, dia 8 de março.

Formada em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e acadêmica de Direito, Vanja conhece bem a luta pelos direitos das mulheres. A amazonense milita, há 28 anos, na UBM. Além de ativista, ela também é membro do Conselho Nacional de Direitos das Mulheres (CNDM) e faz parte da Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (CNODS).

Segundo Vanja, a UBM luta contra as injustiças sociais e aviltamento a direitos vivenciados pelas mulheres, como a desigualdade salarial, a jornada de trabalho maior, incluindo o doméstico, e a violência dentro de casa, dentre outros problemas que são constatados na sociedade. Para falar sobre a UBM e sua luta histórica, confira a entrevista com a presidente da UBM na íntegra abaixo:

Panorama Real: Como foi para você ser convidada para presidir uma entidade tão importante e o que significa para o Amazonas ter uma representante a nível nacional?

Vanja Andréa: Foi desafiador. Conheço poucos casos de amazonenses em direções nacionais. recentemente tivemos a presidenta da UNE (União Nacional dos Estudantes), Bruna Brelaz, e há muitos anos atrás, Selma Baçal na UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas). O movimento de mulheres é algo muito emblemático. Somos mais da metade da população, sofremos com as opressões diversas de uma sociedade capitalista, machista e racista, somos assassinadas, violentadas e estupradas todos os dias , em todo o mundo, mas mesmo assim, ainda temos dificuldade de alcançar a sensibilidade das pessoas para a construção de uma sociedade igualitária. E quando a liderança é do Norte encontra mais desafios ainda. Existe um exercício ousado de, em todas as ações, mostrar para o Brasil que o Norte existe e que possui uma realidade distinta, que tem que ser observada. Considero que para ajudar na integração regional do país e na luta das mulheres, costumamos dizer que crescemos quando nos juntamos e formamos um oceano.

Panorama Real: Como são definidas as pautas que a UBM vai abraçar?

Vanja Andréa: As pautas permanentes são definidas na direção da entidade, como o combate a todo tipo de violência e opressão, monitoramento das políticas públicas, saúde integral das mulheres, direitos sexuais e direitos reprodutivos, dentre outras, e, também, direitos internacionais, porque o Brasil assinou várias pactos, tratados etc, que tratam de direitos das mulheres. Em algumas situações, atuamos com maior intensidade seja a nível nacional ou nos Estados e municípios .

Panorama Real: A UBM tem estado presente em alguns casos de repercussão nacional, como do Daniel Alves e do jogador Robinho. Pode falar um pouco sobre o assunto?

Vanja Andréa: Em relação ao caso de Robinho, Daniel Alves e outros similares, não podemos admitir a não punição. Diz respeito ao quanto a nossa sociedade é misógina e desumaniza a nós mulheres e nossos corpos. Somos as culpadas, as permissivas, não confiáveis, principalmente quando se trata de homens que tenham dinheiro. Eles não são tidos como o que se aproveitam do status social e de seu poder financeiro para abusar das situações e mulheres. As mulheres são aquelas que usam o corpo para atrair bons partidos para proveito financeiro. Temos que mudar a cultura. Foi importante a condenação do Daniel. O Robinho já foi condenado na Itália. Agora tem que ter a pena cumprida aqui. Ele veio pra cá pra fugir da pena. E o Brasil não pode acolher estuprador. Conseguimos suspender o passaporte dele via judicial e a necessidade se deu porque ele poderia fugir daqui também. É necessário que tenhamos uma justiça voltada para a compreensão das opressões das mulheres para julgar esses e tantos outros casos que precisam desse olhar, como a Revogação da Lei de Alienação Parental.

Panorama Real: O Amazonas foi o primeiro em violência contra a mulher, segundo dados de um relatório divulgado nesta semana pelo Senado Federal. Como a senhora avalia essa questão? É algo social? Como podemos lutar contra isso? Qual tem sido o seu trabalho para apoiar mulheres vítimas aqui no Estado?

Vanja Andréa: O aumento da violência contra as mulheres é notório e com doses de crueldade. Em muitos casos, sem haver preocupação efetiva de encobrir o fato. São violências na frente de outras pessoas, o que dá o caráter do sentimento de impunidade, de ter feito o que lhe competia. Na entrevista sobre a Lei Maria da Penha, o Estado do Amazonas foi um que demonstrou menor desconhecimento sobre seu conteúdo. Isso demonstra uma ineficácia da comunicação entre a execução da política com as mulheres. A necessidade de ampliar e fortalecer a rede de enfrentamento à violência e proteção das mulheres é grande. Mesmo com o aumento de delegacias das mulheres apontadas pelo Governo Federal, a realidade ainda deixa a desejar e quem sofrem são as mulheres. É necessário investimento maior pra a Lei Maria da Penha possa funcionar de forma eficaz. É necessária a união de todos os entes da Federação nesse compromisso, o da vida das mulheres. A educação deve cumprir um papel importante pois em sua grade curricular deveria constar disciplina que dialogasse com a desconstrução da cultura machista. Também, valorizar a a participação dos movimentos sociais e o controle social para que juntas possam cumprir, junto com os serviços, um sistema integrado de ações para propagar os direitos das mulheres . Assim, também, como a iniciativa privada deveria se sentir parte dessas ações porque uma sociedade que conta com a participação efetiva das mulheres, ela produz mais, vai mais além e mais rápido.

Panorama Real: Essa semana, a UBM fez um encontro virtual para discutir a situação das mulheres palestinas. Qual tem sido a realidade delas? O que foi discutido nesse encontro e qual será o próximo passo da UBM para ajudar essas mulheres?

Vanja Andréa: O encontro com as mulheres palestinas foi muito emocionante porque uma coisa é a gente ouvir o relato delas pelos jornais, mas quando a gente se reúne e elas falam diretamente sobre suas dores e o que vivem no território palestino foi um momento de emoção e comoção muito grande. Nós escutamos atentamente todas as falas que estavam previstas e isso foi importante porque elas têm necessidade de falar sobre aquilo que se passa lá. A realidade da Palestina está sendo negligenciada pelo mundo. O presidente Lula deu um importante passo ao denunciar para as instituições internacionais e junto com a África cumprir um papel importante nessa situação e todas as mulheres palestinas presentes no nosso evento se posicionaram. Todas disseram que esse é o caminho e agradeceram ao governo brasileiro pela iniciativa. Nessa reunião participaram pessoas de movimentos das mulheres da Colômbia, do Chile e da Argentina, além de organizações pela paz. Essa situação da Palestina tem chamado muita atenção pela crueldade. Nós não estamos vendo uma guerra, que é quando um lado combate o outro de forma igualitária, o que estamos vendo é um massacre de um povo e a nossa busca para ouvir essas mulheres é justamente para que todos vejam o que está ocorrendo lá, de fato, é uma carnificina. O sionismo do Estado de Israel está dizimando um povo. Eles estão matando as mulheres para não gerarem mais vidas e as crianças para que elas não cresçam e lutem por uma Palestina independente.

Panorama Real: Pelo menos, nove leis de proteção às mulheres foram aprovadas pelo Governo Federal somente no fim ano passado. Como você avalia esse fortalecimento de garantias e benefícios?

Vanja Andréa: Somente no primeiro ano do governo Lula, nós tivemos uma série de leis aprovadas que beneficiam as mulheres. Lula fez valer no papel esses direitos. Agora, a gente tem que monitorar muito para que elas possam valer. É fácil fazer uma lei e colocar no papel, mas não é fácil essa lei ser efetivada no dia a dia das mulheres. Precisamos ter um salário igual para um trabalho igual é uma delas. É uma necessidade que se tem que as mulheres receba da mesma forma que o homem já que nós enfrentamos assédios moral e sexual, preconceito e machismo dentro das empresas impedidos que as mulheres sejam promovidas ou são impedidas de trabalhar quando denunciam esse tipo de caso. Então, cabe a nós, representantes de movimentos de mulheres, fazer esse monitoramento e exigir que a lei seja cumprida.