Biden muda de tom sobre massacre em Gaza por pressão das ruas

No discurso, ele reafirmou o apoio a Israel, mas condenou os ataques a civis e reconheceu o número de mortos oficial do Ministério da Saúde de Gaza

Brasil de Fato – Em entrevista à rede de televisão estadunidense NBC, no último sábado, o presidente Joe Biden aumentou o tom e relação ao massacre na Faixa de Gaza. O democrata afirmou que um ataque em Rafah representaria cruzar uma “linha vermelha” e que “não podemos ter mais 30 mil palestinos mortos”.

A mudança progressiva no tom em relação ao governo de extrema direita de Benjamin Netanyahu em Israel não começou hoje. No último discurso anual do Estado da União, perante o Congresso, Joe Biden tratou da situação na Faixa de Gaza.

No discurso, ele reafirmou o apoio a Israel, mas condenou os ataques a civis e reconheceu o número de mortos oficial do Ministério da Saúde de Gaza, algo que não tinha acontecido antes.

“Essa guerra vem cobrando um preço maior dos civis do que todas as guerras anteriores em Gaza juntas”, disse Biden. “Mais de 30 mil palestinos foram mortos. A maioria não é do Hamas. Milhares e milhares de mulheres e crianças inocentes. Meninos e meninas se tornando órfãos. Mais de 2 milhões de palestinos sob bombas ou desalojados”.

Durante o discurso, e com manifestantes do lado de fora, Biden prometeu a construção de um porto temporário para garantir a entrada de ajuda humanitária no território. Essa mudança na retórica não aconteceu sem motivo.

A pressão das ruas

Ibrahim Younes, do Movimento da Juventude Palestina de Nova York, uma organização internacional que luta por Palestina Livre, conversou com o Brasil de Fato sobre o assunto.

Em nível nacional, você está vendo uma mudança na retórica” mas “não está claro se ela vai levar a uma mudança de política”, diz ele.

“Eu acho que esse é um momento muito crítico por causa da eleição, afirmou o militante. “Nós vamos ver o que vai acontecer. Mas no que diz respeito à retórica, eles certamente estão tentando mudar para apelar às pessoas. E eles não estariam fazendo isso se nosso movimento não tivesse força e números, o que ele tem.”

De fato, Joe Biden está sentindo nas urnas o impacto do apoio incondicional da Casa Branca a Israel. Durante a Super Terça, quando diversos estados votam juntos nas prévias, o número de votos nulos, em protesto contra o genocídio em Gaza, bateu recorde. Só no estado de Minnesota, quase 20% dos eleitores anularam o voto.

Os movimentos sociais, e a pressão das manifestações de rua, são os grandes responsáveis pela mudança da opinião pública. Desde o 7 de outubro, manifestações pró-Palestina se tornaram corriqueiras nos EUA.

Em diversos cantos do país, milhares de manifestantes ocuparam ruas, pontos turísticos e estações de metrô. Até mesmo judeus, membros do grupo Jewish Voice for Pease (Voz Judaica pela Paz), foram presos em ações que foram desde a ocupação de um prédios de escritórios do Congresso em Washington até o pátio da Grand Central, a estação de trem mais icônica de Nova York.

Sindicatos dos mais diversos setores criaram uma coalizão pelo cessar-fogo, e até mesmo a Câmara de Vereadores de Chicago aprovou uma resolução com o mesmo pedido.

Um “apagão” na mídia tradicional

A maior de todas as manifestações foi na capital, Washington, reunindo aproximadamente meio milhão de pessoas de acordo com os organizadores. Ainda assim, não ganhou o destaque esperado na mídia.

“O apagamento na mídia é gigantesco”, diz Younes. “Acho que aconteceram manifestações de extrema direita nos EUA, muito menores, que receberam coberturas e análises longas, seja de supremacistas brancos ou de extremistas em Charlottesville, ou do 6 de janeiro com Trump… eles receberam uma grande cobertura e análise. Nosso movimento colocou muito mais gente na rua e foi apagado na mídia, não cobriram, a não ser a mídia independente e de esquerda.”

Ao contrário de outros conflitos na região, no entanto, esse aconteceu na era das redes sociais. Mesmo com um apagamento inicial da grande mídia, as imagens terríveis da Faixa de Gaza chegaram aos celulares de milhões de estadunidenses.

O que era apenas um movimento formado por imigrantes e descendentes de palestinos, rapidamente se tornou amplo.

“Eu acho que muita gente pensa que o movimento palestino é só de palestinos, árabes e muçulmanos. E é verdade, antes de se tornar conhecido no EUA, essa era a base de apoio. Mas essa marcha em Washington trouxe muitas frentes revolucionárias diferentes, muitos grupos de pessoas que estão enfrentando suas próprias batalhas contra a opressão”, afirma Younes.

O militante de Nova York acredita que é hora de Biden ouvir o clamor das ruas, antes que seja tarde demais.

“Eu acho que existe uma possibilidade muito real de que Biden possa perder a eleição de 2024 por causa de Gaza e pelo tanto que ele vem recusando mudar de direção apesar das indicações dramáticas da opinião pública de que é isso que o povo quer”, conclui Younes.