Bisneto votou por impeachment de Dilma e se aliou a Bolsonaro antes de morrer

Bisneto foi encontrado morto nesta terça-feira (28/05) dentro da própria casa, na Ponta Negra
Bisneto era herdeiro e sucessor natural do clã político de sua família (Foto: Divulgação)

Nascido no berço de uma família tradicional no cenário político amazonense, Arthur Bisneto (PL) – que faleceu, na semana passada, aos 44 anos -, teve uma carreira “meteórica” marcada pela rápida ascensão, mas, também, por momentos conturbados, envolvendo, principalmente, polêmicas pessoais e ideológicas.

Bisneto era filho do ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, ex-senador e ex-prefeito da capital amazonense Arthur Virgílio Neto. Ele também era neto de Artur Virgílio Filho, senador que teve o mandato cassado durante a ditadura militar.

Portanto, Bisneto era herdeiro e sucessor natural do clã político de sua família. No entanto, para o sociólogo Luiz Carlos Marques, a trajetória da família do Carmo na política pode ter chegado ao fim.

“A morte é uma verdade apodíctica. Porém, quando ela chega, de forma inesperada, causa uma abalo profundo na família. Quando a família é uma família tradicional no mundo político, as indagações aumentam ainda mais. A morte, apesar de natural, não era esperada. No caso de Bisneto, assistimos a um duplo aspecto da morte. Primeiro pelo falecimento do político em si e também a possibilidade do fim da trajetória da família dele no cenário político. Atualmente, o pai Arthur Neto está com idade avançada e no fim da sua carreira política. Já os filhos de Bisneto ainda são pequenos e não sabemos se pretendem no futuro seguir carreira na política. Então, assim como a morte física é natural, os clãs um dia também podem chegar ao fim”, disse.

Impeachment de Dilma

Bisneto integrou a Câmara dos Deputados entre 2015 e 2019 e foi secretário-chefe da Casa Civil da capital amazonense quando o pai foi prefeito pela última vez, entre 2017 e 2018.

Entre as suas atuações mais emblemáticas na Câmara dos Deputados está a votação dele pela aprovação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016. Na ocasião, Bisneto foi o 90º parlamentar a votar durante a sessão.

“Pela libertação do povo brasileiro, pela responsabilidade que tenho com o meu mandato, pelo Estado do Amazonas, por você minha Manaus, minha razão, meu amor, o meu voto é sim!”, declarou em sua votação e também chegou a rechaçar a tese de “golpe”.

Bisneto manteve postura contra o petismo. Ele chegou a denunciar o governo pelo corte de recursos para a cidade de Manaus e a perseguição política contra o seu pai, que era prefeito de Manaus na ocasião.

“Sair de casa armado, senhor presidente, mas sair armado de amor e determinação para honrar meu país traído, meu Amazonas desprezado, minha Manaus ultrajada por mentes mesquinhas que pensam em punir o ex-senador Arthur Virgílio Neto, hoje prefeito, que desmascarou Lula por oito longos anos, quando na verdade castigam impiedosamente mais de dois milhões de brasileiros governados por ele”, disse na época.

A tendência a se opor a esquerda levou Bisneto a se alinhar com o bolsonarismo, embora ele tenha chegado a chamar Bolsonaro de idiota nas suas redes sociais durante a eleição de 2022.

“Difícil demais. Conheço os dois idiotas”, escreveu Arthur Bisneto, que, em outra publicação, exaltou o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso.

Filiação ao PL

Ainda assim, ele saiu do PSDB e se filiou ao PL – partido onde Bolsonaro é o padrinho de honra. Nas eleições deste ano, Bisneto seria candidato a vereador.

Tanto o ex-presidente Jair Bolsonaro e o presidente Lula prestaram homenagens a Bisneto. Bolsonaro deseou força ao pai do ex-deputado. Em seu perfil no X (antigo Twitter), o petista disse saber que “não há dor maior” do que a perda de um filho ou neto.

Quem era Bisneto?

Arthur Bisneto nasceu em Brasília no dia 1º de outubro de 1979 e ingressou na política em 2000, aos 21 anos. Naquele ano, ele foi eleito vereador de Manaus pelo PSDB, após obter 5.789 votos (0,93% dos votos válidos).

Ele ficou no cargo até 2002, ano em que se elegeu deputado estadual na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), repetindo a façanha por três mandatos consecutivos, entre 2003 e 2014, quando foi eleito para deputado federal, sendo o mais votado na eleição daquele ano, com 250.916 votos. Sua votação foi superada somente em 2022 por Amom Mandel (Cidadania), que ultrapassou os 280 mil votos.

Arthur Bisneto, também, foi chefe da Casa Civil da Prefeitura de Manaus durante o último mandato do pai, Arthur Neto. Depois desse período, Arthur Bisneto não ocupou mais nenhum cargo político ou obteve mandato legislativo.

Na última participação em eleições, Arthur Bisneto foi o candidato à vice do senador Omar Aziz (PSD-AM) que concorreu ao cargo de governador do Amazonas em 2018. A chapa ficou em quarto lugar com 142.804 votos (8,1% dos votos válidos).

Polêmicas pessoais

Dois assuntos polêmicos que envolvem a vida pessoal do ex-deputado envolvem o suposto uso de substâncias químicas e uma prisão por ato obsceno.

Em 2004, Arthur Bisneto foi preso no Ceará por atos obscenos e desacato a autoridade.

O ex-deputado foi levado à delegacia após ser apontado por testemunhas por supostamente estar mostrando suas nádegas de uma das janelas do carro onde estava com três seguranças.

Na delegacia, irritado, Bisneto falou a uma das testemunhas, segundo a delegada Penélope Malveira Góes, que estava sendo confundido com alguma outra pessoa e novamente baixou as calças, perguntando se ela reconhecia suas nádegas.

O que se sabe, segundo pessoas próximas de Bisneto, é que ele vinha passando por um quadro de depressão. A causa da morte não foi divulgada oficialmente, embora a informação que circulou é a de que ele faleceu em função de um infarto fulminante.