Seca volta a pressionar logística e ameaça encarecer mercadorias no Amazonas

Com o Rio Negro abaixo dos 17 metros, custo adicional no transporte de mercadorias volta ao centro das preocupações do comércio. Medida pode encarecer operações, dificultar a reposição de estoques e ampliar a pressão sobre a economia amazonense

A cobrança da taxa costuma ser associada a períodos em que o Rio Negro registra cotas inferiores a 17 metros (Foto: Divulgação)

A queda no nível dos rios do Amazonas voltou a expor uma das principais fragilidades da economia estadual: a dependência do transporte fluvial para garantir o abastecimento de Manaus e dos municípios do interior. Com o Rio Negro abaixo da marca dos 17 metros, transportadoras adotaram posições diferentes sobre a cobrança da chamada “taxa da seca”, custo adicional que pode elevar as despesas de distribuição de mercadorias no Estado.

Enquanto algumas empresas decidiram absorver os custos extras e manter os valores dos fretes, outras optaram por cobrar a tarifa, com previsão de devolução ou concessão de créditos caso as condições de navegação melhorem. A divergência preocupa comerciantes que dependem de mercadorias transportadas por rios e precisam equilibrar os custos logísticos para evitar aumentos ao consumidor.

O impacto é ainda mais significativo para produtos importados, cujo transporte até Manaus pode levar aproximadamente 90 dias. A necessidade de antecipar compras, reorganizar operações e lidar com possíveis atrasos transforma a estiagem em um desafio que ultrapassa o setor de navegação e alcança diretamente o comércio e a economia local.

A cobrança da taxa costuma ser associada a períodos em que o Rio Negro registra cotas inferiores a 17 metros, situação observada atualmente na capital amazonense. Apesar do nível reduzido, o rio apresenta sinais de estabilidade e pequenas oscilações diárias, comportamento também observado nos rios Solimões e Amazonas.

Mesmo com a perspectiva de encerramento da vazante, a recuperação dos níveis dos mananciais ainda não representa uma solução imediata para os problemas logísticos. O período de chuvas precisa se consolidar para que as condições de navegação melhorem de forma mais consistente.

Seca ameaça comércio

Os reflexos da seca também aparecem no planejamento dos lojistas. Diante das incertezas sobre o transporte e a reposição de mercadorias, estabelecimentos comerciais passaram a adotar cautela na formação de estoques e na realização de grandes campanhas promocionais.

A preocupação ganhou força às vésperas da Black Friday. Alguns comerciantes limitaram ofertas e promoções para evitar que produtos com alta procura se esgotassem sem possibilidade de reposição em curto prazo. A estratégia busca impedir que o aumento da demanda comprometa o atendimento aos consumidores.

Embora não exista indicação de risco generalizado de desabastecimento em Manaus, a dificuldade de reposição e a possibilidade de custos adicionais mantêm o setor em alerta. Em um mercado dependente de longas rotas fluviais, qualquer alteração nas condições de navegação pode repercutir no preço, na disponibilidade e no prazo de entrega dos produtos.

BR-319 volta ao debate

A situação também reacende a discussão sobre a vulnerabilidade da infraestrutura logística do Amazonas. A dependência dos rios, especialmente durante os períodos de estiagem severa, reforça os argumentos em torno da necessidade de alternativas para o transporte de cargas.

Nesse contexto, a BR-319 volta ao centro do debate como uma possível rota de integração rodoviária entre o Amazonas e as demais regiões do país. A discussão envolve desafios ambientais, estruturais e de infraestrutura, mas ganha força diante dos prejuízos e das incertezas provocados pelas dificuldades de navegação.

Enquanto não houver alternativas logísticas capazes de reduzir a dependência do transporte fluvial, o Amazonas continuará exposto aos efeitos econômicos das secas. A cobrança da taxa é apenas uma das faces de um problema estrutural que afeta empresas, comerciantes e consumidores e evidencia o custo de manter o estado abastecido durante a estiagem.

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