‘A origem do conflito na Palestina está no sionismo’, afirma o jornalista Breno Altman

Breno Altman é autor de livro que fala sobre o sionismo (Foto: Anwar Assi/Portal Panorama Real)

O genocídio atual que está em curso na Palestina, com as políticas de extermínio levadas a cabo pelo regime de Israel – com o apoio escancarado dos Estados Unidos e de países europeus, como o Reino Unidos e a Alemanha, entre outros -, nos territórios palestinos, especialmente na Faixa de Gaza, reacendeu o debate sobre a origem de um conflito que já se arrasta por mais de 80 anos no Oriente Médio.

No centro das discussões está o sionismo, a ideologia racista e colonial surgida no final do século 19 entre os judeus europeus, que queriam fundar um país supremacista de maioria judaica que garantisse “segurança” e os protegessem das perseguições que sofriam na Europa.

Entre as opções para a formação de um novo lar, estavam países da África e América do Sul, além da própria Palestina, que era habitada, até então, por uma maioria árabe antes da chegada dos sionistas no início do século passado. A escolha pela usurpação da Palestina acabou prevalecendo entre os judeus sionistas europeus, que contavam com o apoio aberto e explícito dos ingleses e franceses, os novos colonizadores da região após a queda do Império Otomano, em 1922.

O problema é que a terra escolhida já estava habitada e os embates pelo controle da região seriam inevitáveis, o que, de fato, ocorreu, resultando na “Nakba”, a catástrofe que levou a expulsão em massa de palestinos de suas casas e deu início a uma das mais antigas campanhas de limpeza étnica da história moderna do mundo.

O domínio sionista – que envolve racismo, políticas de Apartheid e colonialismo -, avançou e, hoje, se traduz em um genocídio aberto na Faixa de Gaza, com o extermínio de mais de 5% da população deste território palestino em um período de apenas nove meses desde 7 de outubro de 2023.

Para jogar um pouco de luz sobre as origens do sionismo e sua essência, além do impacto negativo dessa ideologia para os povos do Oriente Médio, em especial, para os palestinos, o jornalista e escritor Breno Altman, que é judeu, escreveu o livro “Contra o sionismo – Retrato de um política colonial e racista”, que foi publicado pela primeira vez em dezembro do ano passado pela editora Alameda, de São Paulo.

Por conta de sua postura firme, Breno Altman se tornou, hoje, uma das vozes judaicas mais atuantes contra o sionismo no Brasil. Além disso, ele se transformou em um exemplo de que judeus não aceitam que o regime de Israel fale em nome deles, reafirmando o fortalecimento de um grupo que tem ganho espaço em várias partes do mundo, que é o movimento dos judeus antissionistas e anti-Israel.

“Considero que a origem do conflito na Palestina está direta e exclusivamente vinculada ao surgimento do sionismo como doutrina, depois como movimento e, finalmente, com sua encarnação estatal a partir da fundação do Estado de Israel”, declarou Breno Altman com exclusividade ao portal Panorama Real, que o entrevistou, na semana passada, durante a passagem do jornalista por Manaus, onde esteve para fazer o lançamento de sua obra na capital amazonense.

Para saber mais sobre o assunto, confira a entrevista abaixo:

Jornalista judeu Breno Altman tem denunciado o sionismo e os crimes de Israel (Foto: Divulgação)

Panorama Real: Hoje, estamos diante de um dos piores genocídio dos tempos atuais. Um genocídio televisionado, inclusive. Muitas pessoas não entendem o viés ideológico por trás da usurpação da Palestina. Qual é a importância da temática abordada no livro “Contra o Sionismo”?

Breno Altman: Primeiro, considero que a origem do conflito na Palestina está direta e exclusivamente vinculada ao surgimento do sionismo como doutrina, depois como movimento e, finalmente, com sua encarnação estatal a partir da fundação do Estado de Israel. O sionismo buscou construir determinada solução para o antissemitismo para a perseguição que os judeus sofriam, uma solução que foi combater o racismo antijudaico com o racismo judaico, criando um Estado de supremacia judaica e decidiu construir esse Estado na Palestina, onde a maioria esmagadora da população era de palestinos. Os judeus não passavam de 5% a 8% daquela população. Para o regime sionista se consolidar, além de ser racista, a ideologia sionista teria que ser colonialista, ou seja, tinha que expulsar e segregar os palestinos daquela região até o limite de exterminar os palestinos. Portanto, acredito que esse seja a origem do conflito na Palestina. Por este motivo, esse assunto precisa ser exposto sob todas as luzes. Não creio que seja possível estabelecer uma solidariedade à Causa Palestina sem desvendar o que é o sionismo e qual é o ‘ovo da serpente’ desta história. Na verdade, o livro não é sobre o sionismo, mas contra o sionismo. Fiz questão que o livro fosse bem posicionado para identificar que a origem do conflito na Palestina está no sionismo.

Panorama Real: Como tem sido as vendas do seu livro no Brasil?

Breno Altman: As vendas têm sido bastante boas. Desde o lançamento, devo ter conversado com aproximadamente 15 mil pessoas diretamente em mais de 70 lançamentos e atividades. Manaus foi a 22ª capital onde lancei o livro. Portanto, o livro já foi lançado, até o momento, em 22 Estados (até o dia da entrevista), sendo que em alguns deles, lancei o livro mais de uma vez.

Panorama Real: Como tem sido a receptividade da comunidade judaica em relação ao livro? Há uma participação da comunidade no lançamento da obra?

Breno Altman: As instituições judaicas são predominantemente sionistas no Brasil. Essas instituições têm travado um enfrentamento contra mim e eu contra eles. Portanto, é uma disputa de posições antagônicas. Não há a menor conciliação possível entre o sionismo e o que penso ou entre o que penso e o sionismo. É um confronto aberto. Da parte deles (das entidades sionistas), esse confronto tem se traduzido em uma perseguição judicial. Eles já abriram em torno de 14 ações contra mim, quase todas elas abertas pela Conib, que é a Confederação Israelita do Brasil.

Panorama Real: Por que essa posição extremista da Conib contra você?

Breno Altman: Eles me acusam de antissemita (risos). A narrativa do sionismo sempre é a de fazer crer que ser antissionista é a mesma coisa que ser antissemita.

Panorama Real: Em suas postagens, você tem denunciado que a Conib não é leal ao Brasil. De modo geral, as entidades sionistas não são leais ao Brasil, na sua avaliação?

Breno Altman: Essas entidades (sionistas) são parte da “Hasbará”, que é uma palavra em hebraico para informação. É um sistema que Israel criou para divulgar uma boa imagem do governo sionista no mundo. Essas entidades federativas e associativas supostamente judaicas, na verdade, são entidades sionistas. Historicamente, elas expurgaram qualquer voz que não fosse sionista. São um “braço longo” da diplomacia israelense. Eles não são a representação comunitária dos judeus. Eles são a representação informal do regime sionista junto a comunidade judaica no território onde estão organizados. Formalmente, a Conib é uma entidade brasileira da comunidade judaica. Porém, efetivamente, a Conib é uma extensão do regime sionista.

Panorama Real: Sabe precisar qual é o percentual de sionistas e de antissionistas dentro da comunidade judaica?

Breno Altman: Nunca foi realizada uma pesquisa a respeito desse assunto. Posso estar errado, mas acredito que o sionismo é majoritário. Os antissionistas, talvez, constituam algo em torno de 5% a 10%. Os sionistas constituem algo em torno de 60% a 70%. E devemos ter de 20% a 30% que não devem estar envolvidos com as posições sionistas, mas, também, não são antissionistas, e navegam em mares indefinidos. Apesar de termos esse fenômeno da crítica e do ataque duro, por outro lado, em muitos lançamentos que fiz pelo país, além de outras atividades e entrevistas, muitos judeus, principalmente jovens, chegam para mim e dizem que eram sionistas e, em função do que escrevo, eles deixaram de ser sionistas, inclusive rompendo com o sionismo depois do 7 de outubro. Inclusive, já há grupos no Brasil que expressam uma posição antissionista entre os judeus. Destaco dois grupos importantes: o Vozes Judaicas pela Libertação, em São Paulo, e o Articulação Judaica de Esquerda, no Rio de Janeiro. Esses dois grupos são antissionistas.

Panorama Real: Apesar de os sionistas serem a maioria dentro da comunidade judaica, a gente percebe que há um aumento dos movimentos antissionistas entre os judeus, não só no Brasil, como, também, no exterior. Inclusive, grandes manifestações nos Estados Unidos contra a guerra na Faixa de Gaza foram realizadas por judeus antissionistas, entre eles, muitos jovens. Como você vê esse crescimento do sentimento antissionista dentro da comunidade judaica pelo mundo?

Breno Altman: É lá nos Estados Unidos que assistimos, hoje, o movimento mais amplo de ruptura de setores do judaísmo com o sionismo, principalmente, a juventude. As instituições da comunidade judaica continuam a ser sionistas em sua maioria. Os judeus mais velhos são, majoritariamente, sionistas. Porém, os judeus mais novos, com menos de 25 anos, começam a romper com o sionismo. Alguns deles começaram a romper antes mesmo do 7 de outubro. Dentre os programas desenvolvidos pelos sionistas há um programa que é o de levar os judeus da diáspora dos mais diferentes países onde há comunidades judaicas para fazer intercâmbio em Israel. Muitos desses jovens norte-americanos que têm sido levados a Israel, quando voltam, retornam rompidos com o sionismo, pois eles viram a realidade e essa realidade os chocou. Viram que Israel não tinha nada a ver com a propaganda que os sionistas faziam.

Panorama Real: Gostem ou não, você é judeu e como membro da comunidade judaica, você tem o direito de se expressar contra Israel. Como você vê essa tentativa dos sionistas de tentarem monopolizar o controle do mundo judaico?

Breno Altman: Você tocou num ponto importante. O sionismo tenta fazer crer, o tempo todo, que o sionismo e o judaísmo são a mesma coisa. Essa é a narrativa, de tal maneira, que toda vez que alguém criticar o sionismo ou o Estado de Israel, será chamado de antissemita. Esse é o truque narrativo do sionismo. Esse truque é uma falácia e uma grande mentira. Há muitos judeus antissionistas. O sionismo é majoritário entre os sionistas? Sim! Mas o nazismo, também, foi majoritário entre os alemães durante uma época. O fascismo, também, foi majoritário entre os italianos durante uma época. Porém, isso não deu ao nazismo e ao fascismo a possibilidade de se identificar com o povo alemão ou com o povo italiano. O sionismo é somente uma corrente ideológica como outra qualquer. Qualquer judeu pode ser sionista, antissionista ou não sionista. Ele faz a opção ideológica que acredita. Não há nenhuma possibilidade de alguém deixar de ser judeu por não ser sionista. Ser judeu não tem a ver com defender o Estado de Israel. Judeu tem a ver com a sua origem. Todo mundo vem de algum lugar. Eu venho de uma família judaica de origem europeia, especificamente da Polônia, que imigrou para o Brasil nos anos de 1920 do século passado. Grande parte da minha família foi dizimada no Holocausto, tanto por parte de pai quanto por parte de mãe. Minha família, desde meus avós, sempre foi de judeus antissionistas.

Panorama Real: Além de membros da comunidade judaica, muitos judeus, inclusive familiares teus, foram perseguidos pelos nazistas por serem comunistas, uma ideologia antagônica ao nazismo. Podes falar sobre o assunto?

Breno Altman: Quem luta contra o nazismo são os judeus comunistas. Os judeus sionistas, com exceções, eles não lutaram contra os nazistas. Eles imigraram para a Palestina. A rota que o sionismo propôs de enfrentamento ao nazismo foi a fuga. Eles se aproveitaram do que o nazismo significava na Europa, porque o nazismo tinha uma política de limpeza étnica contra os judeus. Como os sionistas já estavam na Palestina colonizando aquele território, a expulsão dos judeus dos territórios controlados pela Alemanha beneficiava o sionismo, que se aproveitou disso para acelerar a colonização da Palestina. Quanto mais judeus fossem expulsos da Europa, mais judeus imigrariam para a Palestina. Nunca houve um embate entre o sionismo e o nazismo.

Breno Altman fez o lançamento de seu livro “Contra o sionismo” na Ufam (Foto: Anwar Assi/Portal Panorama Real)

Panorama Real: Você é uma voz judaica antissionista, que foi muito bem recebido na Ufam em um evento que pode ser considerado como um sucesso total. Porém, essa mesma Ufam abriu as portas para um ex-militar e propagandista sionista, que, assim como você é brasileiro de origem polonesa, porém, com a diferença que ele atuou nas tropas de ocupação de Israel e ajudou a matar e a oprimir o povo da Palestina, embora esse sionista tenha sido escorraçado pelos estudantes da Ufam. Essa diferença no tratamento mostra que a juventude brasileira está mais consciente do que ocorre na Palestina e dos perigos representados pelo sionismo?

Breno Altman: Acredito que sim. Estamos diante de um genocídio televisionado 24 horas por dia sete dias da semana. Que alma boa ou razoavelmente humana, independentemente se é de esquerda ou direita, acha legal o que ocorre na Palestina? Ninguém vai olhar para aquela situação e dar apoio. Só se alma já estiver apodrecida. A Questão Palestina é a régua moral do mundo. Se você quer saber se alguém presta ou não presta, pergunta sobre a Questão Palestina. Se o sujeito apoiar o que ocorre ali, esse sujeito não presta. É normal que a juventude, quando tem informações, fique do lado do povo palestino.

Panorama Real: Como você vê o comportamento de certas universidades e de emissoras brasileiras de TV que abrem espaço para radicais sionistas que servem no exército de Israel e contribuem com a matança de povos originários no Líbano e na Palestina?

Breno Altman: É uma indignidade. Aliás, é um problema da legislação brasileira. Como manter a nacionalidade de alguém que serve no exército de outro país? Não é estranho? O exército é a expressão da soberania de um povo. Você deve servir ao exército de seu país. Numa guerra entre Brasil e Israel, esses cidadãos ficarão de que lado? Nós sabemos a resposta.

Panorama Real: Para finalizar, gostaria de tocar em outro assunto que você conhece bem: o Santos (risos). Como santista roxo, como vê você a atual fase do time na Série B, onde já perdeu, inclusive, para a equipe do Amazonas FC, aqui em Manaus?

Breno Altman: O Santos vive a sua pior fase. O time padece com uma má administração do clube. O Santos, há muitos anos, teve a melhor base de Brasil. Sempre revela bons jogadores há muito tempo. Se levarmos em consideração a fase desde o Pelé, era para o Santos ser mais rico do que o Real Madrid e o Barcelona, juntos, por exemplo. O futebol, particularmente, no Brasil é uma roubalheira geral. Várias administrações picaretas foram destruindo o Santos. Nos últimos anos, o Santos entrou em decadência.