Abin avisou que iria faltar oxigênio em Manaus na pandemia da covid-19

Wilson Lima e Jair Bolsonaro são criticados pela atuação durante a pandemia da covid-19 (Fotos: Divulgação)

A crise de oxigênio que assolou Manaus, em 2021, durante a pandemia da covid-19 – matando mais de 60 pessoas somente no dia 14 de janeiro daquele ano -, foi prevista com meses de antecedência pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que encaminhou, na época, diversos alertas de agravamento da situação no Amazonas à então gestão do presidente Jair Bolsonaro (PL), que não tomou as devidas providências. O órgão também avisou o Governo Federal sobre a subnotificação dos casos de morte pela doença e para os riscos representados pelo garimpo ilegal para a disseminação do vírus entre populações indígenas locais.

O reconhecimento de que a Abin emitiu os alertas consta de um documento oficial publicado “sem alarde” neste ano de 2025 com as “memórias” da atuação da agência durante a pandemia de covid-19 no Amazonas, conforme divulgou, nesta quinta-feira (31/07), o jornalista Jamil Chade, no site Vero Notícias.

Segundo a Abin, porém, todos os alertas teriam sido ignorados pelo governo Bolsonaro, que coloca a culpa pelas mortes dos amazonenses devido à falta de oxigênio na pandemia da covid-19 em seu aliado Wilson Lima (União Brasil), atual governador do Amazonas.

Tanto Bolsonaro quanto Wilson Lima são criticados pela gestão durante a crise de oxigênio que afetou a população de Manaus em 2021.

“A agência, sem alarde, publicou em 2025 um documento no qual traz as ‘memórias’ do seu trabalho durante a pandemia. E os informes e relatos de agentes apontam que o risco de explosão no número de casos havia sido já alertado. Mas nada foi feito”, escreveu Jamil Chade em seu artigo.

Relação do garimpo ilegal com o avanço da doença

Conforme o relato do jornalista Jamil Chade, em um briefing interno datado de 11 de maio de 2020, a Abin já alertava para o impacto da mineração ilegal no avanço da pandemia. “O trânsito de pessoas em função do garimpo rompe a barreira de isolamento relativo que tem sido responsável por proteger essas populações ou, ao menos, por retardar a disseminação da infecção”, alertou a agência no documento.

“O risco é potencializado em virtude do quadro de contágio acelerado na cidade de Manaus/AM, que vive uma das situações mais críticas do país. Apesar de sua população reduzida, o Estado do Amazonas é atualmente o quinto em número de mortes confirmadas por coronavírus e seu sistema de saúde já se encontra sobrecarregado”, indicava o relatório da Abin.

Discurso oficial do governo Bolsonaro divergia da realidade

Citando um agente da Abin que atuava na Superintendência Estadual do Amazonas – e cuja identidade foi preservada -, Jamil Chade explica que a realidade dos relatórios produzidos no Estado não condizia com o discurso oficial do governo Jair Bolsonaro, que minimizava a gravidade da situação.

“A realidade que relatávamos nos documentos não se alinhava com um discurso que, na época, defendia que as notícias que saíam na mídia sobre Manaus eram exageradas”, afirmou o servidor da Abin ao expor a dimensão dos problemas na capital amazonense.

“Só que não eram. Pelo contrário, o que a imprensa mostrou foi pouco perto do que aconteceu de verdade”, constatou o oficial de inteligência que atuava na Superintendência do Amazonas.

O agente conta que a primeira vez que ouviu falar do novo coronavírus no contexto do trabalho foi em uma visita de cortesia que fez ao consulado do Japão em Manaus, em dezembro de 2019.

“Era um evento comemorativo que fazia referência à história da imigração japonesa para a Amazônia brasileira. E nesse evento a consulesa comentou que estava preocupada com as notícias que estavam saindo sobre essa nova epidemia que estava surgindo na China”, disse.

“Até aquele momento, não havia ainda nenhuma demanda da Sede para a nossa Superintendência sobre esse tema. Mas esse contato com os japoneses foi o primeiro sinal, para mim, de que essa questão poderia vir a se tornar algo de interesse para nós. Pouco tempo depois a doença se espalhou pelo mundo, Brasília determinou como seria o acompanhamento da crise e Manaus virou um caos”, lembra o servidor.

Segundo ele, no início, sua superintendência produzia relatórios pontuais, mas, quando a crise se instalou, passaram a ter entregas diárias. O agente lembra como o único trajeto com trânsito que passou a existir em Manaus na pandemia foi na avenida que dá acesso ao cemitério.

“Até que determinaram um limite de um carro por enterro, tentar causar menos tumulto dentro do cemitério e diminuir a probabilidade de contágios, porque o cemitério não comportava aquela quantidade de gente enterrando os familiares”, apontou.

Subnotificação
Eduardo Pazuello teve gestão desastrosa como ministro da Saúde durante a pandemia (Foto: Divulgação)

Outra denúncia publicada pelo jornalista Jamil Chade foi a de que a Abin constatou que os números oficiais de mortes divulgados pela imprensa eram “subnotificados”. Conforme o servidor citado no artigo, nos dados oficiais, “só se contabilizava a morte por covid-19 de pacientes que tinham passado por algum teste, com resultado positivo.

“Não tinha teste para todo mundo. Só uma porcentagem dos mortos era de fato testada, e só essa parte entrava na estatística. E a gente sabia que era muito mais, porque a gente via o que estava acontecendo na cidade, as filas no cemitério, as filas no hospital, gente morrendo, caindo na calçada na frente do hospital”, disse o agente da Abin.

Segundo ele, durante a pandemia, chegaram a morrer 167 pessoas por dia no pico da crise em Manaus. “Essas 28 foram subindo, subindo, 50, 100, 150, até chegar a bater 167 no pico da crise em 2020”, disse.

“Os números oficiais de mortes por COVID-19 registravam só cerca de 30% desse número”, constatou o servidor.

Mal-estar

Por fim, segundo o agente da Abin, os informes enviados pela agência em Manaus começaram a criar um mal-estar no governo Jair Bolsonaro.

“Minha percepção de que esses documentos não estavam agradando vinha de contatos com a Direção-Geral. Era perceptível, até porque não era segredo para ninguém que a Direção-Geral tinha um certo alinhamento ideológico com o governo de então”, disse.

“Na época, o prefeito de Manaus fazia oposição ao presidente, deu entrevistas muito duras, criticando a postura do presidente e a gestão da crise feita pelo governo federal, então acredito que havia uma expectativa, por parte da Direção-Geral, de que as informações da Abin pudessem corroborar o discurso de que a crise em Manaus estava sendo exagerada pelo prefeito ou pela imprensa. Mas não podíamos mentir. A crise, na verdade, era muito mais grave”, apontou.

“Questionava-se, por exemplo, a existência de covas coletivas no cemitério. Mas isso de fato ocorreu. Nós confirmamos, a imprensa registrou com imagens. Não tinha como negar”, disse o agente da Abin.

Covas coletivas foram abertas para enterrar os mortos pela covid em Manaus  (Foto: Altemar Alcantara/Arquivo/Semcom)
Impacto pessoal

Outra informação interessante do artigo mostra o impacto que a crise do oxigênio e a posição do governo Bolsonaro tinham gerado no agente e na equipe dele.

“Pessoalmente, foi muito difícil ter que lidar com todas essas questões: preocupação com o trabalho, com a equipe, com a própria saúde”, disse. “Foi um período de muito estresse, ansiedade, insônia. Uma noite, estava em casa, mas precisava voltar para a Superintendência para mandar um documento até meia-noite, porque o pessoal em Brasília ia fechar um relatório de manhã cedo. Ainda eram umas dez da noite, estava sem dormir, mas com muito sono. Deitei do jeito que estava, de roupa social e sapato, para cochilar um pouco. Botei o despertador para me acordar um pouco depois. Quando acordei, não consegui entender o que estava acontecendo, que horas eram, por que estava dormindo de roupa social e sapato, fiquei desorientado por um tempo”, lembrou.

Houve ainda um sentimento, em outubro de 2020, de que a crise tinha terminado, ao final da primeira onda de contágios.

“Muita gente achava que já era o fim da pandemia, que a cidade havia sofrido muito, mas que havia ‘vencido’, que as coisas já estavam sob controle de novo. Foi nessa época que eu saí de Manaus e fui trabalhar na Sede, em Brasília”, contou.

“Quando eu saí, praticamente tudo já tinha voltado ao normal na cidade, tudo aberto, o comércio funcionando normalmente. Manaus é uma cidade com muitas festas. Tem festa de segunda a segunda. Forró, principalmente. Quando eu saí, já tinha voltado tudo. E aí, aconteceu tudo de novo. Em janeiro de 2021, veio aquela crise do oxigênio, que foi horrível, e ainda com relatos de desvio de dinheiro que era para comprar respiradores, golpes aplicados em quem tentava comprar oxigênio, um absurdo!”, disse.

“Em 2021, a crise de oxigênio tampouco foi uma surpresa”, concluiu o agente da Abin que atuou no Estado do Amazonas

Luta na Justiça

Até hoje, ninguém foi responsabilizado pela crise do oxigênio em Manaus. Autoridades públicas e empresas privadas foram alvos de ações do Ministério Publico do Amazonas (MP-AM), Ministério Publico Federal (MPF) e da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid instalada no Senado sob a presidência do senador pelo Amazonas, Omar Aziz (PSD).

Vários processos correm até hoje no Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), apresentados por pessoas que buscam indenização pelas mortes e sequelas provenientes do episódio.

No ano passado, quando a crise do oxigênio completou três anos, a família de uma das vítimas fatais finalmente conseguiu o direito de receber uma indenização no valor de R$ 100 mil. A decisão foi da Segunda Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM), que manteve a condenação do Governo do Estado a pagar a indenização.

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