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O dia 14 de janeiro de 2021 será marcado para sempre como um dos mais infames da história de Manaus e do Amazonas. Naquela fatídica data, há exatos cinco anos, mais de 60 pessoas teriam morrido devido à falta de oxigênio nos hospitais da capital amazonense durante a pandemia da covid-19, episódio que causou comoção em todo o Brasil e no mundo.
O episódio é considerado como a maior tragédia da saúde pública do Amazonas. Além das mortes – o Governo do Amazonas reconhece por volta de 30 óbitos entre os dias 14 e 15 de janeiro, enquanto que o Ministério Público Federal (MPF) afirma que esse número é maior -; a crise do oxigênio obrigou a realização de transferências às pressas de mais de 500 pacientes para hospitais em outros estados.
Na época, devido á falta de oxigênio nos hospitais de Manaus, agravada pela inércia do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e, também, da gestão do governador Wilson Lima (União Brasil), a vizinha Venezuela – sob às ordens do então presidente Nicolás Maduro -; enviou dezenas de cilindros de oxigênio para ajudar a população de Manaus.
Recentemente, ao invés de mostrar gratidão, Wilson Lima chegou a debochar do sequestro de Maduro, no último dia 3 de janeiro, por militares dos Estados Unidos que invadiram a Venezuela, porém, o político bolsonarista “pegou uma invertida” da população nas redes sociais, que lembraram do fato de que, quando o dirigente venezuelano ajudava o povo de Manaus, o governador do Amazonas virava réu no Superior Tribunal de Justiça (STJ) após ser acusado de corrupção durante a pandemia da covid-19.

No dia 14 de janeiro de 2021, o sistema de saúde amazonense virou um caos após entrar em colapso. As unidades hospitalares estavam superlotadas após recordes de internações por covid-19.
O Amazonas havia sido o primeiro estado do Brasil a sofrer com os impactos da segunda onda do vírus que assustou o mundo.
Devido a escassez do insumo básico, as pessoas peregrinavam pela capital amazonense tentando recarregar os cilindros de oxigênio para manter os pacientes vivos. Nos dias seguintes, os hospitais colapsaram. Até uma unidade de recém-nascidos chegou a sofrer com a falta de oxigênio.
Até hoje, ninguém foi responsabilizado pela crise do oxigênio. Autoridades públicas e empresas privadas foram alvos de ações do Ministério Publico do Amazonas (MP-AM), Ministério Publico Federal (MPF) e da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, instalada no Senado sob a presidência do senador Omar Aziz (PSD-AM).
Vários processos correm até hoje no Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), apresentados por pessoas que buscam indenização pelas mortes e sequelas provenientes do episódio. Em março de 2024, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o deputado federal bolsonarista Eduardo Pazuello (PL-RJ), ex-ministro da Saúde, fosse investigado pela morte de 31 pessoas por falta de oxigênio em hospitais de Manaus durante a pandemia da covid.
Em 2023, a família de uma das vítimas fatais finalmente conseguiu o direito de receber uma indenização no valor de R$ 100 mil. A decisão foi da Segunda Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), que manteve a condenação do Governo do Estado a pagar a indenização.
Entre essas famílias que buscam reparação na Justiça está a de Iyad Hajoj. Ele e suas irmãs, que perderam o pai e a mãe no mesmo dia, com quase uma hora de diferença, ainda aguardam uma punição aos gestores responsáveis pela crise e os pagamentos de indenizações por danos morais. Segundo ele, a família jamais recebeu suporte das autoridades governamentais.
“Nós nunca recebemos apoio do governo. Nunca fomos chamados pelas autoridades para nos pronunciarmos sobre a dor que vivemos vendo nossos parentes morrendo asfixiados. Nem na CPI realizada pelo Congresso Nacional lembraram de nos chamar, ainda assim não vamos nos calar. Agora, nos resta na Justiça a esperança para essa reparação”, afirmou o administrador.

No ano passado, vieram à tona documentos que comprovam que a crise do oxigênio em Manaus foi prevista com meses de antecedência pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Na época, o órgão encaminhou diversos alertas de agravamento da situação no Amazonas à então gestão do presidente Jair Bolsonaro (PL), que, por sua vez, não tomou as devidas providências.
A Abin também avisou o Governo Federal sobre a subnotificação dos casos de morte pela doença e para os riscos representados pelo garimpo ilegal para a disseminação do vírus entre populações indígenas. O reconhecimento de que a Abin emitiu os alertas consta de um documento oficial publicado “sem alarde”, em 2025, com as “memórias” da atuação da agência durante a pandemia de covid-19 no Amazonas.
Segundo informou o Ministério Público Federal (MPF), durante coletiva de imprensa, nesta quarta-feira (14/01), documentos da Abin mostram que o Governo Federal foi alertado em 28 de dezembro de 2020 sobre a escassez de oxigênio na rede pública de saúde da capital amazonense

A exemplo dos outros anos, o Governo do Amazonas e a Prefeitura de Manaus ignoraram completamente o dia 14 de janeiro e não programaram, neste ano, nenhum evento ou cerimônia para lembrar as vítimas da maior tragédia da saúde público da história amazonense. Tanto o governador Wilson Lima – que é apontado como um dos grandes responsáveis pelo episódio -, quando o prefeito David Almeida mantiveram o silêncio e não divulgaram nenhuma nota sobre o assunto.
No ano passado a Prefeitura de Manaus chegou a inaugurar um espaço em homenagem às vítimas da covid-19 e aos profissionais da saúde que atuaram na linha de frente durante a pandemia. A praça Anjo da Esperança foi inaugurada na entrada do cemitério Nossa Senhora Aparecida, no bairro Tarumã, zona Oeste da capital.
O monumento Anjo da Esperança é uma escultura de três metros de altura que representa um anjo com máscara facial e um par de pulmões nas mãos, símbolo do respiro da humanidade.